Medo de quĂȘ, Fanny Joly?
- Jason Prado
- 20 de jun. de 2002
- 6 min de leitura

A escritora recebeu Tatiana Milanez em sua casa, em Paris, em 2002, para essa entrevista publicada na edição MEDO do Caderno de Leituras Compartilhadas.
Com a colaboração de Ana Claudia Maia
Fanny Joly adora rir. Foi rindo que ela escreveu seu primeiro texto, um monĂłlogo cĂŽmico para a irmĂŁ mais velha, a atriz Sylvie Joly. Isso foi hĂĄ quase trinta anos. Hoje, aos 47, um marido e trĂȘs filhos, a escritora continua se divertindo com o trabalho. Apesar da Licenciatura em Letras, Fanny confessa que sua formação nĂŁo foi na universidade. Seu aprendizado foi no trabalho. Começou como redatora publicitĂĄria, uma profissĂŁo que, segundo ela, lhe ensinou a ser direta no texto, dado essencial na literatura infantil. Fanny tambĂ©m escreveu roteiros para o cinema e televisĂŁo, alĂ©m de esquetes para o teatro. Mas o que mais lhe dĂĄ prazer sĂŁo as histĂłrias para crianças. Foram mais de 130 livros traduzidos em 14 lĂnguas, entre eles a conhecida coleção Quem tem medo de. Nas paredes em volta de sua mesa de trabalho, vĂĄrios desenhos de pequenos leitores. Ă nesta sala, num apartamento claro e confortĂĄvel, a poucos metros da Torre Eiffel, em Paris, que Fanny Joly recebeu a repĂłrter de Leituras Compartilhadas.

Leituras Compartilhadas: Os seus livros da coleção "Quem tem medo de" falam de medos infantis que parecem universais. VocĂȘ acredita que existam medos que todas as crianças sentem em determinada idade?
Fanny Joly: Esta coleção Ă© dirigida Ă s crianças entre 3 e 8 anos. Nesta fase existem medos quase instintivos que encontramos em todas as crianças. Quando começamos a pensar nesta coleção, fizemos uma lista de medos. Escolhemos entĂŁo doze temas que nos pareciam universais. NĂłs atĂ© fizemos um teste: perguntamos a algumas crianças quais os medos que elas tinham. NĂłs terminamos por escolher temas que nos permitiam uma histĂłria tranqĂŒilizadora e engraçada. A idĂ©ia era mostrar o medo num contexto onde nĂŁo haveria razĂŁo para que ele existisse, como medo de dragĂŁo, medo de rato, medo de escuro... Eliminamos os temas que falavam de coisas que realmente dĂŁo medo e que sĂŁo perigosas, como, por exemplo, o fogo. A gente preferiu se concentrar em medos de conto de fada, quase mĂticos.
LC: E por quĂȘ escrever sobre medo? Quando criança, vocĂȘ tinha medo?
Fanny: Eu era muito medrosa, muito mesmo. Na verdade, eu não escolhi escrever sobre esse tema. Como na época eu jå era uma autora mais ou menos conhecida dos editores, me propuseram fazer essa coleção em torno do medo. E como de fato eu era muito medrosa, quando criança, achei a ideia interessante e me deu vontade de fazer.
LC: Hoje em dia a educação infantil se preocupa em ajudar as crianças a perder o medo. Mas antigamente o medo era utilizado como mĂ©todo de educação, como, por exemplo, âtem um monstro no seu quarto que vai te pegar se vocĂȘ nĂŁo dormirâ. VocĂȘ acredita que muitos medos infantis foram criados pelos adultos?
Fanny: Usar o medo da criança como mĂ©todo de educação - entre aspas - ou como meio de obter o que se quer como o exemplo que vocĂȘ utilizou, eu acho que Ă© algo realmente nocivo. Para mim, o medo Ă© um elemento muito negativo no dia-a-dia. Ele nos impede de ir para a frente, nos bloqueia, nos freia, nos faz andar para trĂĄs. Acho, entĂŁo, que Ă© um elemento que deve ser combatido. Ă verdade que hoje em dia nĂłs, adultos, temos razĂŁo de ter medo. A mĂdia nos submete a uma enorme quantidade de notĂcias, nĂłs somos bombardeados de imagens que nos transformam, Ă© difĂcil lidar com tudo isso! Mas se eu tivesse que escrever, por exemplo, âQuem tem medo de sequestro?â, num contexto onde isso pode acontecer, nĂŁo sei o que faria⊠Porque o que as crianças amam nessas histĂłrias sobre o medo Ă© que elas se sentem tranquilas. O fio condutor da histĂłria Ă© âvocĂȘ tem medo de rato?â, âmas o rato nĂŁo vai te comer!â, âvocĂȘ tem medo de aranha?â, âmas, olha, a tua avĂł pega a aranha com a mĂŁoâŠâ. Ă esse tipo de coisa que tranquiliza, mas Ă© verdade que com um sequestrador, por exemplo, vocĂȘ corre o risco de encontrĂĄ-lo, e vai ser horrĂvel!
LC: Os seus livros sĂŁo sempre engraçados, bem humorados. VocĂȘ acredita no riso como arma contra o medo?
Fanny: Ah, sim! Eu acredito no riso como arma contra quase tudo no mundo. Contra medo, rir Ă© uma arma fantĂĄstica. Quando vocĂȘ estĂĄ com medo e alguĂ©m te faz rir, o medo se desfaz imediatamente. De qualquer maneira, eu sou uma pessoa que adora rir, e todos os meus livros tĂȘm um tom humorĂstico. Nessa coleção eu escolhi um estilo diferente. De todos os livros que escrevi, os livros Quem tem medo sĂŁo os Ășnicos nos quais falo com a criança na segunda pessoa. Geralmente nos livros para crianças a narração Ă© feita na terceira ou na primeira pessoa. Nessa coleção eu escolhi falar diretamente com a criança. Ela Ă© o herĂłi da histĂłria. Quando o medo aparece de repente, ela se identifica ainda mais, ela estĂĄ dentro da histĂłria. E o que acontece no livro, acontece com ela tambĂ©m. E eu acho que esse estilo funciona muito bem. Eu encontrei muitas crianças que leram esses livros. Na França eles foram publicados hĂĄ dez anos (N.R.: no inĂcio dos anos 1990), entĂŁo tive a oportunidade de encontrar muitas crianças e professores que me disseram que o texto na segunda pessoa fala diretamente Ă s crianças, funciona.
LC: Muitas crianças sĂŁo reprimidas quando tĂȘm medo. Alguns pais dizem aos seus filhos que medo Ă© uma fragilidade. VocĂȘ acredita que Ă© importante sentir medo?
Fanny: Eu nĂŁo acho que temos que eliminar o medo e sim tentar compreendĂȘ-lo e superĂĄ-lo. Tentar entender o porquĂȘ, se o medo tem razĂŁo de existir naquele momento. O fato de nĂŁo termos medo nĂŁo significa que estĂĄ tudo bem, mas o importante Ă© tentar ir em frente, superar esse medo. Ă uma etapa do crescimento, da maturidade. Ă bom poder falar.
LC: VocĂȘ acha que a sĂ©rie sobre o medo terminou ou acha que daria para escrever mais alguns livros sobre esse tema?
Fanny: Eu acho que acabou. Para mim a ideia original dessa coleção foi hĂĄ dez anos. Ela foi criada num grande formato, depois relançamos a coleção num formato menor, mas nĂŁo escrevi livros novos, ficamos com os doze temas. Foram os doze estabelecidos inicialmente. AliĂĄs, o mais difĂcil para mim foi escrever o livro Quem tem medo do mar?. Ă verdade que existem crianças que tĂȘm medo da ĂĄgua e Ă© verdade que depois que aprendemos a nadar perdemos esse medo e que no mar tem peixinhos. Mas, ao mesmo tempo, o mar pode ser perigoso. Quando eu te dizia que o fogo pode ser perigoso, o mar tambĂ©m pode ser perigoso, entĂŁo nĂŁo foi muito fĂĄcil. Foi o tema mais difĂcil de ser tratado.
LC: E como foi que vocĂȘ achou a solução para falar de um tema difĂcil?
Fanny: Para mim a melhor solução seria nĂŁo ter que escrever sobre o mar. Eu nĂŁo gosto da ideia de ter que dizer: ânĂŁo precisa ter medo do marâ. Por outro lado, o livro sobre o monstro, por exemplo, foi fantĂĄstico escrever, porque monstros nĂŁo existem! Ă Ăłtimo poder dizer no final da histĂłria: âos monstros sĂŁo Ăłtimos, mas felizmente nĂŁo existem, sĂł nos livrosâ. Sobre os extraterrestres, como eu nĂŁo acredito neles, adorei poder contar uma histĂłria delirante e saber que nunca vamos encontrar um. Houve uma ideia de fazer âQuem tem medo de ladrĂŁo?â - parecido com a ideia do sequestrador de que falamos agora hĂĄ pouco -, mas decidimos nĂŁo incluir esse tema, porque no nosso espĂrito seguro e engraçado, nĂŁo cabiaâŠ
LC: Hoje em dias as crianças enfrentam o medo do dia-a-dia: medo de terroristas, medo de bomba⊠VocĂȘ acha, no entanto, que elas ainda tĂȘm medo de monstros e bruxas?
Fanny: Sim, porque hĂĄ um prazer de ter medo, que Ă© o medo com o qual podemos brincar, sabendo que ele nĂŁo existe de verdade. As crianças tĂȘm realmente medo quando vĂȘem o noticiĂĄrio com assuntos assustadores, mas elas adoram ter medo com os livros, com brinquedos⊠Elas brincam com o medo porque sabem que no fundo Ă© mentira e que de alguma forma Ă© um prazer ter medo. Quando estamos lendo, nossa vida nĂŁo corre nenhum risco.
