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  • Jason Prado

Tania Dauster


Professora Tania Dauster

Antropóloga, Professora do Departamento de Educação da PUC-Rio e Coordenadora da Cátedra Unesco de Leitura da PUC-Rio conversou com Ana Claudia Maia, do Leia Brasil, durante a Conferência Quanto custa o Brasil que não lê?


Leia Brasil: Fale sobre a Cátedra de Leitura da Unesco Puc-Rio e a importância dela para que se desvincule o problema da leitura como simplesmente um problema da educação estudada por pessoas de Letras ou dos cursos de Pedagogia.


Tânia Dauster: Sou antropóloga e abri na Puc-Rio uma disciplina de antropologia e educação em 1987. Acho interessante colocar isso porque o departamento de educação da Puc-Rio foi o primeiro departamento na universidade brasileira. Não é que não existisse anteriormente essa relação entre antropologia e educação trabalhada no Brasil, mas, sistematicamente num departamento de educação na universidade brasileira, com cursos na graduação e pós-graduação, com todo um sistema de pesquisa, com orientações de teses e dissertações, essa foi uma experiência pioneira na época.


Sou uma pessoa trans ou multidisciplinar porque fiz filosofia na graduação, depois fiz mestrado em educação e doutorado em antropologia. Meu mestrado em educação foi feito com a professora Vera Candau, uma pessoa com muita visão, e, quando terminei o doutorado em antropologia, ela me chamou para abrir essa área. Isso foi em 1987 como disse.


Venho trabalhando com pesquisas, sou pesquisadora do CNPq, e constitui um grupo de antropologia da leitura e da escrita que se chama Grupo de Estudos de Antropologia da Leitura e da Escrita (GEALE). Venho fazendo sucessivas pesquisas nessa área. Por exemplo, a primeira pesquisa foi sobre a relação da educação e do trabalho e observei uma coisa semelhante à da professora Terezinha Nunes. Eu fiz um artigo, mais tarde publicado, que intitulei como “A infância de curta duração”, porque associei essa questão da infância curta a uma escola que se constitui e se produz socialmente de curta duração. Quis dizer que, em principio, acho que as famílias de classes populares dão muito valor à educação, fazem muitos sacrifícios para educarem seus filhos. Mas há a possibilidade de, à medida que esses filhos se apresentam como alfabetizados, sendo capazes de ler basicamente e de fazer algumas contas, é como se a proposta escolar estivesse cumprida e essas crianças pudessem ir para o mundo do trabalho. Essa produção social faz com que as crianças saiam da escola antes do que deveriam.


Depois fiz outra pesquisa juntamente com o professor Pedro Garcia tentando perceber como os escritores da chamada literatura infanto-juvenil viam a questão da leitura na escola, na sociedade, e nós publicamos um livro com essas entrevistas que foram feitas com Ana Maria Machado, Ziraldo, enfim, com uma série de escritores importantes da área. Esse livro chama-se “Teia de Autores”, da Autêntica. Em seguida, fiz outra pesquisa com escritores e fui fazendo diferentes pesquisas, inclusive na universidade, com os professores, um estudo de caso pequeno, mas que eu buscava ver como eles viam suas relações com o livro e a leitura. A trajetória e memória deles como leitores. E agora, mais recentemente, fiz uma pesquisa em que tento ver quais são as relações que um pequeno grupo de alunos universitários tem com a questão da tela, da leitura na tela. Em 1997 abri um escritório da Unesco no Rio de Janeiro. Trabalhando com leitura conheci a professora Eliana Yunes e abrindo o escritório fiquei conhecendo um programa muito interessante que eles intitulam de Cátedras Unituin, que são o estabelecimento de redes universitárias, de seminários internacionais, de congressos, de produção de conhecimento e pesquisa a partir de um determinado tema.


Fiquei na Unesco por dois anos e tive que voltar integralmente à Puc porque é minha instituição de base, há uma mater, e eu voltei justamente para manter toda minha produção por lá. Mas fiquei com aquela idéia que era a semente de uma coisa que poderia ser feita. Entrei em contato com a professora Eliana Yunes. Não sei bem como foram esses primeiros momentos, mas decidimos criar um projeto de uma Cátedra Unesco na Puc. Isso levou tempo porque nós fizemos o projeto que levou a uma série de negociações. Esse projeto foi avaliado na Unesco em Paris, na sede. Enfim, isso tudo foi negociado e conversado com a Unesco e, finalmente, tivemos a alegria de assinar o convênio entre Puc e Unesco. E somos três coordenadores, eu, Eliana Yunes e Luiz Antonio Coelho, do departamento de artes. Esse projeto, então, nasce com uma feição interdisciplinar, dentro do Centro de Teologia e Ciências Humanas da Puc, e tem uma visão ampla de leitura. Trabalhamos muito com essa relação entre o leitor e o texto de uma maneira contextualizada. Acreditamos que a leitura é essa interação, essa negociação de sentidos e significados e tem a ver com toda a história do leitor, ou seja, quando eu interpreto ou leio estou interpretando com toda a minha história. Evidentemente há leitores mais competentes, digamos assim, e alguns leitores, como alguns autores chamam, pouco leitores. Eu trabalho muito com a teoria de Roger Chartier¹ a partir dos trabalhos de pesquisa dele, e coloquei as questões que ele trabalha dentro de minha prática de antropóloga, de trabalho de campo. Enfim, fazendo investigações culturais, sociais, em diferentes contextos. É muito importante pensarmos que há um leitor, um texto, e na questão da materialidade do texto que é importante, da produção de significado. Se leio um livro estarei provavelmente produzindo um significado de leitura, de interpretação ao texto que estou lendo, que será distinto se eu pegar uma fotocópia e um texto dissociado daquele contexto do livro. Então, a materialidade do texto é um ponto importante, o lugar que o leitor ocupa é outro ponto importante e vemos como um fator relevante o próprio papel do editor na confecção desses textos.


Nós temos uma maneira de trabalhar com leitura mais ampla do que a leitura da palavra escrita, porque pensamos que é importante para uma Cátedra de Leitura pensar a leitura de uma maneira mais ampla. A leitura da imagem, por exemplo, é um ponto importante para ser elaborado. Nós temos três coordenadores e uma equipe de pesquisadores de altíssimo nível, todos doutores em letras, educação, que estão trabalhando conosco para que se possa justamente implementar nossos projetos. Temos uma relação com a cidade, com a Fundação Cultural Ormeo Junqueira, em Leopoldina, que é dar assessoria para fundar uma biblioteca direcionada para crianças e jovens, não só na organização física da biblioteca, mas na formação de mediadores de leitura junto com professores. Temos também a ambição de realizar seminários internacionais, quer dizer, a cátedra já nasce com essa feição internacional por conta da relação com a Unesco. Nós já estabelecemos redes com determinadas universidades no Brasil, o que significa que temos pesquisadores associados à nossa Cátedra. Agora vamos estabelecer também uma rede com as universidades jesuíticas da América do Sul. Eu prezo muito o projeto que está começando a ser pensado que seria fazer um grande seminário internacional com os paises de língua portuguesa e tentar ver como a literatura e seu ensino estão sendo pensados nestes países e que projetos de formação de leitores existem, que atividades em torno da questão da leitura e do livro existem nesses paises. Então será uma grande troca de experiências e idéias no âmbito internacional. As coisas estão sendo elaboradas com muita garra, com muita paixão.


LB: O professor Jean Hébrard, Vice-Ministro da Educação da França, esteve conosco no ciclo de debates Leia Brasil e falou da diferença que existe na escola brasileira, da classe média, que é a escola particular, e a escola pública, que estão as pessoas mais desfavorecidas econômica e socialmente. Ele falou que essa escola pública ainda tem uma cultura de classe média e pressupõe que a criança tem um nível cultural em casa de classe média e que a escola trabalha como se houvesse essa troca, essa continuidade em casa, o que não existe. O que a senhora acha disso?


Tânia Dauster: Dentro da minha linha de trabalho, em primeiro lugar eu vou escanear essas categorias de escolas particulares e escolas públicas. Acho que é muito importante pensarmos em diversidade. Se você observar a cena das escolas particulares, você tem escolas de excelência, como, por exemplo, São Bento, São Vicente. Mas você tem escolas particulares que estão sendo apropriadas pelas camadas populares. Nós não podemos pensar a categoria particular como unívoca. A escola particular é o terreno da diversidade. E por sua vez, a escola pública também tem recebido pessoas de camadas médias, por causa do chamado empobrecimento das camadas médias. Então, essa é uma questão mais complexa do que apenas essa dicotomia pode ou deve indicar.


LB: O que você acha de abrir essa discussão, que é o que o ciclo de debates Leia Brasil propõe, dos custos do analfabetismo funcional? Isso não é mais para ser discutido simplesmente dentro dos ciclos acadêmicos, isso é para a sociedade civil agora?

Tânia Dauster: Eu só posso concordar. Todos nós temos responsabilidade em relação a essa questão de produzir uma sociedade leitora, capacitada a ler. ■


¹ Roger Chartier é professor e diretor do Centro de Pesquisas Históricas na Ecole des Hautes Etudes em Ciências Sociais na França. Suas pesquisas baseiam-se na importância da leitura na Europa e a relação entre o texto e o leitor na era digital.


Saiba mais sobre a Cátedra da Puc-Rio em: www.catedra.puc-rio.br

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