• Jason Prado

Roberto Freire conversa com Paulo Condini


A busca do prazer é o objetivo biológico da vida

Roberto Freire

Nestes tempos cabeludos, em que o que mais se vê e ouve são demonstrações de ignorância , preconceito e temor de perda de privilégios, nada melhor do que sentar com Roberto Freire, relaxar, e deixá-lo discorrer sobre a condição humana.

Melhor, ainda, ouvi-lo falar sobre o Desejo — este sentimento que impulsiona nossa vida —, e sobre tudo o que ele realmente representa.

É por isso que proponho, aos nossos leitores, que também tomem assento e venham partilhar esse convívio privilegiado, vivido numa tarde de chuva, no silêncio do prazenteiro bairro do Sumarezinho.

Paulo Condini


Este é um tema importante.

Nas profissões que exerci, principalmente a de terapeuta corporal, trabalhando com as sugestões de Wilhelm Reich — é que eu dediquei muito pouco tempo à psicanálise, e acabei me tornando discípulo de Reich — eu criei a Soma, um trabalho de terapia corporal. Talvez o mais importante da minha vida, no sentido de utilidade pública.

E ela é importante com relação ao desejo porque as idéias do Reich foram desenvolvidas sobre a questão do prazer. Ao contrário de Freud, que buscava todas as explicações para suas teses na mitologia grega, fazendo hipóteses — como, por exemplo, o complexo de Édipo — e tomando-as como verdades científicas, com as quais desenvolveu a psicanálise.

Ao contrário, Reich obriga você a refletir, não sobre o pensamento. O pensamento é uma coisa secundária. Ele obriga você a pensar na energia viva do seu corpo. Isto porque ele, na década de 20 do século passado, praticamente revelou ao ocidente as idéias que os chineses já desenvolviam há 5.000 anos. Especialmente a idéia da energia viva, que explica que, quando uma pessoa adoece, é porque houve alteração na energia vital em seu corpo. Foi a partir daí que eles desenvolveram a acupuntura. Verificando, com os toques corporais das agulhas, se há distribuição homogênea de energia viva, se ela está desorganizada ou existem áreas que não tenham energia viva circulando.

Na verdade, Reich mudou a forma de entender os conceitos de saúde e de doença e, para poder demonstrar esta questão de energia no corpo e explicar todos os problemas psicológicos através da má distribuição da energia vital, ele acabou descobrindo as respostas. Seu ponto de partida foi o estudo do orgasmo e sua obra nasceu desta pesquisa sobre uma segunda função do orgasmo, além da primeira, que é aquela que produz o prazer máximo que os corpos podem atingir.

Estudando e medindo a energia que se movia dentro do corpo, ele verificou que na hora do orgasmo ocorre uma espécie de curto circuito na energia que está distribuída pelo corpo. Primeiramente ela se desorganiza por completo e, logo após o orgasmo, mostra que o corpo está harmonicamente enriquecido de energia. Ou seja, antes do orgasmo há falhas, ausências de energia aqui e ali, acúmulo de energia nesta ou naquela região. Em seguida ao orgasmo, há uma revolução na energia viva do corpo; há uma nova distribuição, agora homogênea, e as pessoas ficam tão pacificamente bem que adormecem.

Essa obra do Reich fez com que todos os que trabalhavam com terapia corporal tivessem um medidor, um indicador do processo de saúde e do processo de patologia. Eu entendi logo o que o Reich queria dizer: O que faz com que a pessoa saiba que está vivendo bem, que está melhor, que tem mais saúde corporal ou mental é se ela está orientando a sua vida no sentido do prazer. Porque se ela vai buscar o prazer, ela vai ter a sensação orgástica que o prazer produz. E então a energia viva em seu corpo se distribui harmonicamente e faz bem a ela: ela fica feliz.

O prazer orgástico é fantástico. Ele não é só físico, é muito mais. Para nós, a busca do prazer é o objetivo biológico da vida. Quando a pessoa não está buscando o prazer, não está conseguindo suficiente prazer, ela fica doente. Adoece de diferentes maneiras, de acordo com a sua problemática de vida.

Quando cheguei a este ponto, parei de estudar Reich e psicologia e voltei para a biologia. Trabalhei muito tempo fazendo pesquisas biológicas no instituto de Biofísica, no Rio, e depois no Collège de France, em Paris.

Comecei a me lembrar de alguns princípios da biologia que eram tão importantes para compreender a vida em todos os animais, especialmente um instinto que é fundamental para todos os seres vivos, a que se dá o nome de instinto da irritabilidade animal. Todos os animais têm esse instinto, que é fundamental para que a vida se manifeste e funcione, seja na ameba, no elefante ou no homem.

Os biólogos explicam este instinto claramente: O animal está vivo, no seu meio. Vamos imaginar uma ameba. Ela está no meio líquido e, de repente, sente alguma coisa que lhe é muito agradável. Imediatamente ela se dirige ao ponto onde a coisa está e tenta verificar o que é. Ela se envolve com a coisa. O que acontece então? Ela se alimenta e se reproduz.

Os pontos fundamentais da vida de um animal de desenvolvimento primitivo são a alimentação e a reprodução. Como o instinto da irritabilidade faz com que ele perceba o que lhe dá prazer, ele se aproxima, se junta, se mistura etc. Da mesma forma como ele foge das coisas que não lhe dão prazer, do que incomoda, do que faz sentir dor e do que ameaça a sua existência. Se for perseguido, ele luta. Em último caso, ele tenta destruí-las. Por isso podemos afirmar que a afetividade e a agressividade nascem deste instinto e é fácil perceber que a vida humana não é diferente da vida de qualquer outro ser vivo. Nós vivemos à procura do que nos dá prazer e fugimos e lutamos contra o que nos dá desprazer.

No entanto, contrario do que pensa a biologia, as filosofias e as igrejas, para poderem comandar os homens propõem que eles abdiquem do prazer. Fujam do prazer, porque o prazer é um grande pecado.

Assim, eu percebo que o mundo, hoje, é dominado por várias correntes filosóficas, religiosas e políticas que defendem o bloqueio ao prazer, afirmando que ele é pecaminoso, é egoísta, é contra a natureza. Essas teorias...

Eu dou um exemplo: na religião é a idéia do pecado; na psicanálise é o instinto de morte. Eu acredito que não existe instinto de morte nenhum. O homem não tem consciência da morte. Nenhuma. A morte é uma coisa que ele desconhece e, se ele um dia vai saber o que é, não será com o sistema nervoso funcionando. Ele já morreu. Então, a consciência do que é depois da morte não existe.

Freud aceita o instinto de morte, não como cientista, mas como um religioso. E a psicanálise também aceita o instinto de morte. Já o marxismo e o capitalismo, que são duas correntes que vicejaram no mundo ao longo desses últimos séculos, os dois exigem o sacrifício. Foi o que os marxistas fizeram com os russos. Os botaram durante setenta anos se sacrificando para o futuro comunismo. Nesse espaço de tempo, eles foram puro sofrimento, para terminarem no capitalismo, como estão agora.

O capitalista quer que você se sacrifique, que você aceite todas as diferenças de classes, as diferenças de poder. Você só pode sonhar. Desejar, mas sem direito a posse, porque o capitalismo organizou o mundo dando felicidade a um mínimo de pessoas. O resto morre de fome. Quer dizer, esta parte da civilização humana tem que sofrer para que a outra, aquela minoria, se beneficie.

Enfim, a psicanálise — que é a teoria psicológica mais importante ainda hoje em todos os meios, pois ela é absoluta. Ela é contra o prazer. Tendo feito psicanálise como eu fiz, posso afirmar que eles tentam adaptar a pessoa à sua condição e limitam enormemente o prazer.

A Soma, quando nasceu, se insurgiu contra todas as formas de psicologia contemporâneas oriundas da psicanálise, na medida em que elas estão todas a serviço do capitalismo. Nenhuma delas é contra o poder e o domínio das minorias.

Ou seja, a Soma nasceu para combater esta idéia de diminuir a possibilidade de prazer na pessoa e neurotizá-la. A neurose vem de você restringir a busca do prazer a que me referi. Quanto menos prazer a pessoa tiver na vida, mais ela é neurótica. Quanto mais prazer ela puder ter, mais ela é livre. E, quantos mais desejos ela puder satisfazer; quanto mais ela puder combater coisas que são contra ela — que ela não quer aceitar, mas que é obrigada a engolir — mais ela é livre e saudável.

Assim, o centro das discussões filosóficas e psicológicas se situa basicamente nesse ponto: é necessário recuperar a possibilidade do prazer para que a pessoa não fique neurótica. Pela orientação católica, por exemplo, as mulheres são educadas com repressão autoritária, que as impede de viver o prazer, ou lhes impossibilita o prazer sexual até a hora do casamento. O resultado disso é conhecido: 70% delas não conseguem alcançar o prazer orgástico.

Voltando ao tema, o que interessa é se estudar a possibilidade de redenção da pessoa humana, através da realização do prazer na pessoa animal, uma vez que o instinto da irritabilidade diz que você tem que realizar seu prazer e tem que usar também de sua agressividade para se defender, quando o impedem de viver o prazer. Diferentemente das terapias que ficam impedindo que as pessoas exijam, exibam ou exerçam sua irritabilidade, nós apoiamos a necessidade do uso da agressividade. É só uma questão de medida.

Por exemplo: quando estudamos a agressividade, começamos pelo “sim” e pelo “não”. Um ser humano vivo diz sim e não todos os momentos. E se ele não disser os “nãos” que são também tão necessários quanto os “sins”, ele fica infeliz. O resultado dos estudos entre a agressividade e a afetividade indica que uma é tão necessária quanto outra, apenas necessita de limites. Uma pessoa que não exerce a sua agressividade o dia inteiro, em pequenos momentos, vai acumulando insatisfações que a levam, um dia, à revolta e a violência. A violência é fruto da impossibilidade que uma pessoa tem de dizer simples “nãos”, cotidianos e necessários.

Agora, para que eu fale sobre o desejo, pediria que você aceitasse uma mudança de palavra, porque quando eu trabalhava a palavra desejo com os meus clientes, ou nos meus livros, eu percebia que havia uma dificuldade de assimilação e de compreensão. Minha hipótese era que teria havido uma modificação semântica da palavra e isto precisaria ficar entendido. Pesquisei durante dois anos e descobri: os meus clientes diziam muito mais tesão do que desejo. Meus filhos também, e os amigos dos meus filhos.

Comecei a perceber que a juventude, depois da década de sessenta, mudou, passou a usar tesão em lugar de desejo, mas misturada com outras coisas.

Então, o que significava tesão?

Invariavelmente, todos os jovens que conheci na pesquisa percebiam o prazer, a busca do prazer e a realização do desejo. E sempre que falavam “tesão”, estavam se referindo ao prazer, a uma sensualidade implícita neste desejo. Mas vinham junto, em proporção quase igual, e à parte da sensualidade e do desejo sexual, outras duas palavras, outros dois significados, que eram o de alegria e o de beleza. Para eles tesão era o exercício e a percepção da possibilidade de se exercer o prazer sexual, misturado com um tipo de alegria e de beleza, sensualizadas pelo prazer.

O jovem sabe. Quando você fala “estou com tesão por tal coisa”, é diferente de “estou com desejo de tal coisa”. Eles entendem que desejo é uma coisa física, uma coisa que não invade toda a pessoa. Para eles, tesão é misturado com alegria porque... Se ele disser sobre uma festa, “ela foi um tesão”, é porque essa festa foi muito gostosa; muito prazerosa e, mas ao mesmo tempo, muito alegre, uma vez que o prazer puro não é necessariamente alegre. A mesma coisa com a beleza. Quando eles se referem que fulana é linda, é porque ela tem os traços, esteticamente falando, harmônicos. Mas se falam que ela é um tesão, é porque ela deve ser muito gostosa, e consegue provocar neles um agrado sensual junto com o agrado estético.

Por exemplo, quando estava em Ouro Preto fazendo a pesquisa, uma menina passou e eu perguntei a ela: “Você poderia me dizer o você sente por tesão. O que significa tesão para você?”

E ela respondeu: “Nós estamos em Ouro Preto, não é? E tem um exemplo bom. As igrejas de Ouro Preto. O maior tesão de Ouro Preto é a igreja de São Francisco.”

E eu estranhei. “Como tesão? As pessoas se referem à arquitetura como uma beleza... Se referem à sua estética, às suas formas...”

E ela interrompeu: “Pois é, tudo isto é muito interessante, mas eu acho que o mais interessante é o tesão que esta igreja provoca”.

“Você pode explicar por quê?” Eu perguntei e ela encerrou o papo.

“Não! Mas vai lá para você ver”.

Eu fui lá na igreja e a primeira coisa que notei foi que era uma igreja barroca. Barroco português. Colonial português, mas diferente das outras, porque ela é redonda. Todas as igrejas barrocas são quadradas, terminam em ângulos. E a igreja de São Francisco era toda redonda. Era gostosa. A gente se sentia feliz só de ficar vendo...

Entendeu? Os depoimentos foram muito interessantes, porque não foi só pegar a estatística, somar e dizer: “dá tanto de prazer, tanto de alegria...”

A partir daí, nós começamos usar, na Soma, o referencial tesão para substituir prazer, a fim de chegar a alguma coisa mais completa, porque o tesão reflete o desejo em todos os seus campos. Isso porque nossa clínica era praticamente de jovens. Não digo etariamente, porque os clientes são de 17 a 30 anos. Falo de juventude de pessoas que querem, que sonham, que procuram coisas. Gente que está acomodada não procura terapia, e muito menos a Soma. Para que pudéssemos falar mais diretamente a eles, e que eles entendessem o nosso objetivo, estabelecemos palavra tesão em lugar de desejo. Porque tesão significa desejo, mas um desejo atualizado.

Foi a partir disso que publiquei esta pesquisa num livro chamado Sem tesão não há solução, cujo título eu estava procurando. Eu não podia chamar o livro assim: “Tesão”. Precisava de uma frase, de uma coisa mais completa. Um dia, passando ao lado do cemitério do Araçá, naquela ladeirona, olhei para a parede e estava escrito: “Sem tesão não há solução”, com letrinha pequena, assim, de dois centímetros, e eu cheguei bem perto, li e disse para mim — “Que maravilha! É o título do livro.” Porque, realmente, se as pessoas não adquirirem o potencial de exercer seu tesão, elas não poderão ser felizes.

E isso era fantástico. Daí eu fui ver: na base da Soma, no que é que a gente procurava ajudar as pessoas? Elas tinham sido reprimidas na sua originalidade única. Porque a natureza faz cada pessoa diferente da outra. Elas têm desejo de se comportar, assim ou assado; de trabalhar nisto, ou naquilo; de conviver com pessoas, assim ou assado; mas existe uma tendência, nos estados autoritários, à formação de famílias autoritárias, que forçam a barra e que querem que os filhos façam o que eles acham que é melhor. No que está mais disponível no mercado.

Violentam-se muito os desejos das pessoas na educação autoritária, tanto nas escolas quanto nas famílias. O que queremos é acabar com o autoritarismo no mundo. Tudo o que for autoritário, somos contra, porque, para nós, toda a deformação de caráter, de personalidade, de comportamento, de felicidade, de neurose, de angústia, de ansiedade, de loucura, é produto da repressão das coisas que a natureza deu para aquela pessoa realizar. Se as pessoas não vivem aquilo que a natureza lhe deu como original, elas acabam sendo manuseadas, usadas, escravizadas e inutilizadas.

Nós sabemos disso. E quando as pessoas fazem Soma e nós lutamos para que elas descubram qual a sua natureza e elas começam a descobrir, elas mostram logo a repressão que receberam. Demonstram o quanto e como foram reprimidas.

Quando a igreja e o sistema reprimem essa busca de prazer, só resta para as pessoas o desejo, mas um outro tipo de desejo. Foi Freud quem descobriu o que era isso. Trata-se do mecanismo de sublimação. Por exemplo: se um padre não pode ter relações sexuais, não pode exercer seu prazer sexual, ele passa a exercitar seu prazer espiritual, o contato com Deus, o aperfeiçoamento do seu amor aos pobres, se dedicar aos pobres. Freud chama a isso de mecanismos psicológicos. A racionalização é um outro mecanismo. Por exemplo: se há uma coisa que está errada em você e que você não quer que passe para os outros, você inventa um jeito de transformar esse problema em outra coisa. Ou seja, você racionaliza. São vários mecanismos para você deixar de seguir a natureza e se justificar por não o estar fazendo. No entanto, é preciso entender por que o sistema autoritário se instalou no mundo, e, para isso, vamos falar um pouco sobre a família.

Foi Reich quem definiu bem o papel da família, porque o Estado, quando é autoritário, precisa cumprir seu papel com polícia, com soldados, com decretos etc. As escolas, por conta de suas origens — no Brasil as escolas são terrivelmente autoritárias, porque nasceram com os Jesuítas. Trata-se de um ensino tão autoritário que eles conseguiram transformaram a vida espiritual dos índios. Suprimiram um conteúdo místico herdado de séculos e impingiram aquele racionalismo da igreja Católica. Isto sem falar que autorizavam que esses índios pudessem ser assassinados e maltratados, sob a alegação de que “não tinham alma”.

O autoritarismo, no processo civilizatório, seja o exercido hoje pela ditaduras, seja o exercido por impérios do passado, é imposto pela violência, pela prisão, pela tortura e pela morte. No entanto, com o surgimento do processo democrático, passou-se a evitar o uso da violência explícita — armas, polícia e soldados — mas inventou-se um mecanismo psicológico extraordinário, mais poderoso do que várias bombas atômicas juntas, a meu ver, que é a família. A família burguesa. Porque ela espelha e perpetua o Estado. A família faz tudo o que o Estado quer. São suas mãos sujas que deformam as pessoas desde cedo, desde que os indivíduos nascem. E, quando saem da família e vão para a escola, estão lá os tais ensinos jesuíticos para não deixar que eles desobedeçam e sigam as regras. É uma coisa tão ardilosamente armada que se torna o maior problema do mundo.

O pensamento de um rapaz de 17 anos, chamado Etiene de la Boétie (1530-1568), que depois se tornou poeta e filósofo conhecido, num manuscrito de 1548 — que teve sua primeira edição parcial póstuma em 1574, e cujo texto integral somente foi editado em 1577 —, fazia um questionamento fundamental para que se possa entender o processo de dominação autoritário.

“Eu compreendo” — ele pensou —, “que uma pessoa queira ser poderosa e domine mil pessoas, cem mil pessoas, a população de um país inteiro. Ou, pela sua vontade, seja um ditador. Isso tem sido possível e já aconteceu muitas vezes. Agora, o que eu não consigo entender é como que cada pessoa, sabendo que existem milhões iguais a ela, obedecem à vontade de um homem que, se for enfrentado por apenas um deles, é capaz de ser derrubado; se por dez deles pode ser linchado e que, di­ante de mil, desaparece”.

Como o poder do homem sobre o homem é estranho... Como é capaz de levar uma pessoa a conseguir dominar milhares? Qual é a explicação para isto?

As pessoas escrevem, escrevem, mas não explicam.

Na Soma nós tentamos uma explicação: o Estado, querendo dominar a população, precisa invalidar o poder dos jovens. É possível fazer a família, através de mecanismos de chantagens afetivas, derrubar os desejos dos jovens de ser, de atender à sua originalidade única... É assim, através de chantagens amorosas, das quais eu fui uma vítima. Eu tinha outros sonhos na minha adolescência, na minha infância. A minha família decidiu que eu iria ser médico. Meu avô era médico, meus tios eram médicos. Da minha geração só eu pintava como bom médico, e fui tratado como médico desde pequenininho. E foi um horror.

Eu fiquei um cara sem nenhum poder de luta, de aventura. Tive que fazer a minha aventura literária, desde pequeno, fora da minha casa. Com meus amigos que estavam ligados à cultura daquela época. Com eles falava de Mário de Andrade, de Monteiro Lobato. Mas eu ia para casa e não podia falar deles. Eu tinha que falar no professor Montenegro, grande cirurgião. Não no Monteiro Lobato. Não se pode avaliar o tamanho do poder que a família burguesa tem sobre os filhos, para dobrar a sua originalidade, para que eles obedeçam e sigam as ordens que vêm do Estado. Ele é uma coisa inacreditável.

Todos os meus clientes chegaram assim. Eu e quase todos os meus amigos sofremos muito e muitos não conseguiram ser aquilo para o que nasceram. E, depois que eu dei a volta, que eu enfrentei a família, e depois enfrentei a universidade e por fim enfrentei o Estado, eu me senti livre. Comecei a fazer tudo o que eu bem entendia. Hoje eu faço tudo o que eu bem entendo. Tenho dificuldades financeiras, que é o argumento fundamental da família, para o filho: “precisa pagar as contas, poeta não ganha nada, e tal”.

A docilidade das populações aos poderosos é produzida dentro da família e dentro das escolas. Eles perdem esta força. Quando você faz a terapia de Soma, em seguida descobre o que quer. É preciso largar, primeiro, a família. Depois vai ter que enfrentar os professores, na faculdade. Muitas vezes acaba deixando a faculdade, e aí vai para o mercado. Chega ao mercado e é condenado de todas as maneiras.

Mas, exercendo a sua originalidade, você é capaz de produzir coisas maravilhosas. As pessoas que a gente chama de gênio são aquelas que descobrem pequenos detalhes e que revolucionam tudo. O maior gênio, para mim, da história, foi quem inventou a roda. Depois que ele inventou a roda, toda a tecnologia foi possível. A revolução industrial, sem a roda não teria existido. Tudo dependeu desse processo mecânico da rolagem.

Por isso nós temos que atender ao desejo, e entender o desejo, fundamental­mente, como a manifestação, em cada pessoa, da originalidade que lhe é única. A natureza faz dela desenhista. Dá para ela esses potenciais, mas empurra: Vai lá! Vai buscar! Vai fazer! Porque interessa à natureza saber o efeito de suas mudanças na espécie. Então ela fica lá forçando, em terrível angústia, porque vê que a família é contra, que os amigos são contra, e ela precisa dizer que acha tudo aquilo um absurdo.

Nesse sentido, a idéia que as pessoas têm de desejo é uma idéia limitada. Isso porque a palavra desejo foi “assensualizada”. Assim, desejo é uma coisa pura, limpa, não tem sensualidade nenhuma, nem tem ambição. É só para você matar a fome, matar a sede: desejo de água, desejo de comida e desejo de mulher para você procriar. Mas não se fala muito nesse desejo. Porque quando se falar como é que ele é, vão entrar essas coisas que o tesão está dizendo, e então começam a chamar de tara, de doença, porque esses desejos mais fortes são identificados como impuros.

Eu não sou contra a palavra desejo. Penso que ela deve existir. Mas acredito que foi necessário também trazer à tona o tesão. Fui verificar e essa palavra — com os significados descritos — não existe em nenhuma língua do mundo, inclusive no português de Portugal. O tesão existe em Portugal como força: desejo de mulher; excitação; ereção do pênis. E não fala disso que é um impulso vital.

Os preconceitos contra certas expressões impedem você de usá-las. Quando eu fiz meu livro Sem tesão não há solução, os jornais, ao noticiar seu lançamento, escreviam assim: “Roberto Freire vai lançar o seu novo livro: Sem T... não há solução”. Hoje vejo a palavra tesão sendo usada por professores, por letras de música e teatro, no cotidiano das pessoas e fico super feliz. Porque eu ajudei, de alguma forma, a trazer para o uso cotidiano uma expressão que facilitou muito a compreensão dos problemas em psicologia.

Li muita coisa bonita sobre tesão, como, por exemplo, quando se fala do tesão do artista. Que coisa linda. Lembrei-me de quando fui estudar a obra do Rodin. Eu morava em Paris, e ia quase todo o dia ao Museu Rodin. Era apaixonado por aquela obra. Mais tarde, bem mais tarde, fui ler uma biografia dele. E descobri que a arte dele é a expressão do tesão. Ele pegava barro e pedia para as modelos irem se mexendo, como se elas tivessem com desejo de um homem, desejo de uma relação sexual, e que ela mostrasse isto. Ele ficava modelando no barro esses momentos expressivos. Depois ele ia para o mármore e copiava das estatuetinhas que havia feito. Hoje, quando você olha para uma estátua dele, sente que ele é grande, mesmo. Eu tinha vontade de tocar nas esculturas, e levei muita bronca dos guardas. Eu tinha mesmo era vontade de passar as mãos naquelas mulheres...

Eu acredito que a sensualidade dá ao desejo a qualidade expressiva. O desejo mostra a coisa como é, substantiva. O que a adjetiva é a sensualidade. Por isso a importância que passou a ter, para mim, o estudo do tesão. Inicio meu livro, Sem tesão não há solução com esta frase: “É preciso acrescentar mais uma dimensão ao universo: ao tempo e ao espaço. Agora, a ele, temos que adicionar o tesão. Porque se adicionarmos o tesão, poderemos ver a vida oscilando entre o desejo realizado. O Prazer alcançado no ato de viver e essa dimensão seriam o lado humano do universo.”

Entrevista concedida a Paulo Condini por Roberto Freire, em sua residência, em

São Paulo, em 17 de outubro de 2002.

Roberto Freire Escritor e somoterapeuta. Autor de Cléo e Daniel e Sem tesão não há solução.

Paulo Condini Jornalista, ator e produtor. Escreveu vários livros, entre eles Socorro e Os filhos do rio.

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