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Leio, logo vivo - módulo 3 - CONHECER

Ezequiel Theodoro da Silva Faculdade de Educação/UNICAMP

Apropriação do saber e a necessidade de contextualização do autor da obra. A formação do leitor; acervo e memória; linguagem e memória; leitura crítica; a revolução cultural e o acesso à leitura.

"Contrariamente ao que às vezes se diz, nossa época é por excelência o tempo do escrito. Nenhuma tarefa, hoje, pode ser levada a bom termo sem o recurso ao escrito. Quer se trate de tarefas profissionais, de tarefas ligadas à vida cotidiana, de atividades de lazer ou de deveres do cidadão, é necessário antes de mais nada ler e muito freqüentemente escrever. E todos aqueles que se desencorajam com essas atividades se acham condenados à dependência, ficam marginalizados, e tornam-se presas fáceis de todas as formas de manipulação e mesmo de opressão. Com o prodigioso desenvolvimento de novas técnicas, esta tendência certamente se ampliará, resultando diretamente numa sociedade na qual os que sabem ler terão sob seu poder aqueles que não sabem, os que se deixarão se distanciar - ou que a sociedade distanciará - pelo conhecimento." (1) EVELINE CHARMEUX. Aprender a Ler : Vencendo o Fracasso, p.10.

Não que os analfabetos, presos pelas circunstâncias às fronteiras da oralidade, sejam incapazes de refletir sobre as contradições da sociedade... porém, ainda que possam existir leitores "analfabetos" da realidade, havemos de convir que a aprendizagem e o domínio da palavra escrita abrem múltiplas perspectivas para o conhecimento do mundo.

Não que os escritos sejam a pura expressão da verdade: há muito lixo, há muita mentira que encontra na escrita o seu principal meio de circulação. Entretanto, havemos de convir que as conquistas culturais da humanidade vêm sendo registradas por vários tipos de escrita ao longo destes dois milênios de existência humana. Portanto, ser leitor é ter a possibilidade de recriar essas conquistas e produzir outras tantas na linha evolutiva da história.

Não que o conhecimento ocorra única e exclusivamente através dos livros ou seus similares - vendo, ouvindo, falando, fazendo, etc. também somos capazes de compreender e conhecer os fenômenos. Porém, o adentramento crítico em um conjunto bem selecionado de textos sobre um determinado assunto pode ajudar a conhecê-lo melhor e com maior profundidade. Por vezes, reconheçamos, não simplesmente "ajudar" nesse processo, mas colocar-se como imprescindível ou vital no processo de construção do conhecimento sobre esse assunto.

Esta breve introdução serve para desmistificar a idéia de que sem a leitura da palavra escrita não existe a possibilidade de conhecimento da realidade. Analfabetismo não é sinônimo de ignorância a respeito dos múltiplos problemas ou desafios que sempre envolveram a existência do homem. A alfabetização e a leiturização abrem novas perspectivas de participação social pela inserção da pessoa letrada no mundo da escrita - mundo esse que conserva, registra bens culturais específicos, permitindo, pela leitura, a sua recriação e o seu incremento pelos homens. Homens leitores...

LEITURA : IMAGINAÇÃO E CONHECIMENTO

"Pra mim, livro é vida; desde que eu era muito pequena os livros me deram casa e comida. Foi assim: eu brincava de construtora, livro era tijolo; em pé, fazia parede; deitado, fazia degrau de escada; inclinado, encostava um no outro e fazia telhado. E quando a casinha ficava pronta eu me espremia lá dentro pra brincar de morar em livro. De casa em casa eu fui descobrindo o mundo (de tanto olhar pras paredes). Primeiro, olhando desenhos; depois, decifrando palavras. Fui crescendo; e derrubei telhados com a cabeça. Mas fui pegando intimidade com as palavras. E quanto mais íntimas a gente ficava, menos eu ia me lembrando de consertar o telhado ou de construir novas casas. Só por causa de uma razão: o livro agora alimentava a minha imaginação. Todo dia a minha imaginação comia, comia e comia; e de barriga assim toda cheia, me levava pra morar no mundo inteiro: iglu, cabana, palácio, arranha-céu, era só escolher e pronto, o livro me dava. Foi assim que, devagarinho, me habituei com essa troca tão gostosa que -- no meu jeito de ver as coisas - é a troca da própria vida; quanto mais eu buscava no livro, mais ele me dava. Mas como a gente tem mania de sempre querer mais, eu cismei um dia de alargar a troca: comecei a fabricar tijolo para - em algum lugar - uma criança juntar com outros, e levantar a casa onde ela vai morar." (2) LIGIA BOJUNGA NUNES, Livro, p. 7-8.

Enquanto artesanato de linguagem, enquanto estopim da fantasia, enquanto estimulação dos desejos, a literatura não apenas expressa a vida, mas sinaliza tacitamente como a vida pode ser de outra maneira. Pela leitura, ao recriar na sua imaginação uma obra literária fruída, o leitor sai de si, aventura-se, alarga o seu campo de experiências e, no percurso mesmo, aguça/adensa a sua compreensão dos fenômenos culturais. Enfim, pela leitura o leitor conhece... Mas conhece o quê ? Diríamos: conhece tudo aquilo que é possível conhecer - isto porque todos os temas são passíveis e possíveis de serem trabalhados literariamente. Exemplos para ilustrar: ler Guimarães Rosa, nas linhas e entrelinhas, é ganhar entendimentos filosóficos; ler Julio Verne é ter a possibilidade de compreender densos conceitos científicos; ler Malba Tahan é saber um pouco melhor os segredos da matemática; ler O Reizinho Mandão, de Ruth Rocha, é aprofundar o conhecimento sobre as mazelas do poder e do autoritarismo. E assim por diante - nas múltiplas arquiteturas que sustentam o universo da literatura estão presentes conhecimentos oriundos de todas as ciências, conforme percebidos, pensados, tecidos e expressos pelos escritores. Nestes termos e eliminando desta proposição qualquer ranço didatista, a leitura de uma obra literária pode equivaler a uma 'aula' ou a uma 'grande lição' mesmo porque necessariamente ensina sem querer ensinar. Mais ou menos assim :

Descoberta da 'outra' matemática - José Gomes Ferreira

Ai o ponteiro da tortura
naquela sala
que a matemática tornava mais escura
em vez de iluminá-la.
Felizmente só o nada-de-mim ficava lá dentro.
O resto ouvia no páteo em-que-nos-sonhamos,
pássaro a aprender os cálculos do vento
aos saltos do chão para os ramos.
Mas só quando voltava para casa à tardinha
encontrava a minha verdadeira matemática à espera
na lógica dura das teclas do piano,
no perfil-oiro-pedra da vizinha,
na flauta de água macia do tanque -
chuva de Mozart nos zincos da Primavera...

UNIDADES DE COMPREENSÃO E CONHECIMENTO

Conscientes e convencidos de que as interações com as obras literárias são geradoras de conhecimento (não pelo estudo, mas pelo prazer), a nossa questão agora é saber como organizá-las e dinamizá-las no espaço da escola. É importante ressaltar que a natureza estética da literatura clama por uma pedagogia "arejada e aberta", que não bloqueie a participação, a liberdade e autonomia dos leitores. Quer dizer : didatizar a literatura, apresentando-a nos moldes clássicos da chamada "lição de leitura", significa destruir os seus aspectos de fruição/prazer junto aos leitores, neste caso leitores em processo de formação. A organização de unidades de compreensão e conhecimento pode ser uma saída para a construção de uma pedagogia que faça jus à natureza dos textos literários. Uma saída e não a saída, mesmo porque acreditamos na capacidade criadora dos professores para, frente aos desafios de um grupo de alunos, estabelecer caminhos diferenciados de trabalho. Assim, esta descrição metodológica para a produção de unidades de leitura, capazes de instigar compreensão e conhecimento, deve ser tomada como uma possibilidade a ser refletida pelo professor (ou conjunto de professores) à luz das suas condições de ensino, das características do contexto onde ele atua e das experiências dos estudantes.

(A) Definição/Eleição do Tema da Unidade
No intuito de evitar a dispersão de desejos e interesses (ainda que este fenômeno possa orientar outras propostas de leitura), organizar uma ou mais atividades em que os alunos sejam chamados a decidir/eleger democraticamente um tema para o aprofundamento via práticas de leitura ao longo do(s) semestre(s) letivo(s). O tema pode ser qualquer um desde que vinculado aos problemas ou à necessidades do grupo de leitores.

(B) Seleção e Seqüenciação de Textos Ciente do tema que acende a curiosidade do grupo, pesquisar textos (de preferência literários) que atendam a essa curiosidade e que, uma vez dinamizados através de atividades específicas, vá aumentando o seu grau de compreensão e conhecimento ao longo do percurso curricular.

(C) Invenção de Dinâmicas de Apoio Ao invés de ter na atividade de produção escrita a única forma de revelar caminhadas cognitivas e avanços de compreensão, organizar atividades a partir de outros campos artísticos: teatro (dramatização, mímica, etc.), cinema e vídeo, artes plásticas (pintura, escultura, desenho, etc.) e música. É claro que as diferentes configurações da literatura (romance, poesia, conto, novela, etc.) se conjugam tematicamente para atender às exigências da unidade.

(D) Avaliação da Unidade
Observar a vivência ou o processo vivido no percurso trilhado pelo grupo, focando-o para efeito de avaliação e, quando for o caso, atribuição de notas aos participantes da aventura-viagem.

Nunca é demais lembrar que a seleção e a inclusão de textos informativos (não- literários) podem incrementar a compreensão do tema pelo grupo. Sensível a isto, o professor pode e deve enriquecer o mergulho para dentro das unidades temáticas com textos técnicos, aproveitando a oportunidade para o desenvolvimento de competências de estudo (pesquisar, resumir, usar o catálogo das bibliotecas, sintetizar, etc.)
Outrossim, cabe destacar que o professor não precisa ser um expert sobre o tema privilegiado pelo grupo. Pelo contrário, assumindo um currículo em construção e não-acabado, o professor se apresenta e se comporta como um pesquisador que também aprende no e com o processo. Dessa forma, antes de possuir conteúdos pré-fixados para transmissão unidirecional, o professor abre-se à aventura do conhecimento juntamente com seus alunos, organizando atividades de busca e de interação e catalisando as sínteses progressivas que revelem a construção coletiva de conhecimentos sobre o tema.

PROJETO DE COMPREENSÃO E SITUAÇÕES DE LEITURA

"Podemos (...) dizer que, sem situações 'verdadeiras' de leitura, nenhum aprendizagem durável e adaptável pode ocorrer. Ora, numa situação efetiva, é necessário que reflitamos para construir o sentido, e para isso não podemos confiar em nenhum outro mecanismo. É preciso Ter um projeto de leitura e saber relacionar esse projeto ao objeto portador de texto, à sua função social e às informações que ele contém. Em resumo, é preciso ter uma atitude de pesquisa inteligente. É uma atitude desse tipo que importa adquirir de início, como uma 'primeira higiene' de toda conduta de leitura." (4) EVELINE CHARMEUX, Aprender a Ler: Vencendo o Fracasso, p.89.

Não que uma andorinha só seja incapaz de fazer um verão: um único professor, se for um leitor consciente e bem preparado pedagogicamente, pode fazer verdadeiros milagres no que se refere ao desenvolvimento do gosto pela leitura junto aos seus grupos de alunos. Mas, em caso de a promoção da leitura na escola ser assumida coletivamente, integradamente, interdisciplinarmente, transversalmente pelo coletivo docente como um todo, as chances do cultivo do amor pelos livros serão muito maiores. Não é chegada a hora de fazer valer a máxima de que a leitura, por ser um instrumento do conhecimento, é responsabilidade de todos os professores, de todas as disciplinas?

Não que o desejo de interação com as obras escritas decorra somente de trabalhos escolares; por vezes, esse desejo pode nascer de situações sociais as mais diversas, conforme os rumos da vida de cada cidadão. Mas, convenhamos, a escola pode ser e deve ser um reduto privilegiado para a aprendizagem da leitura e para a convivência prazerosa com os livros. Quando, afinal, as nossas escolas retomarão, com a devida autoridade e autonomia, a razão de ser da sua existência, ou seja, o compromisso com a promoção do conhecimento junto às novas gerações ? Não que somente um único texto esporádico, lido despretensiosamente em algum lugar deste mundo, leve o leitor a levitar na fantasia, a sentir o prazer de ganhar um conhecimento. Entretanto, múltiplos olhares poéticos, numa seqüência organizada de textos, podem refinar/educar as retinas que orientam a curiosidade dos leitores no contexto da escola.

Não que Paulo Leminski esteja lá muito errado ao dizer

RUMO AO SUMO
Disfarça, tem gente olhando.
Uns, olham pro alto,
cometas, luas, galáxias.
Outros, olham de banda,
lunetas luares, sintaxes.
De frente ou de lado,
sempre tem gente olhando,
olhando ou sendo olhado.
Outros olham para baixo,
procurando algum vestígio
do tempo que a gente acha,
em busca do espaço perdido.
Raros olham para dentro,
já que dentro não tem nada.
Apenas um peso imenso,
a alma, esse conto de fada.

Achamos que o professor, no que se refere a sua vida como leitor e como responsável pela formação de outros leitores, tem que reaprender a olhar. Olhar para todos os lados, para dentro e para fora. Urgentemente !


NOTAS

(1) CHARMEUX, Eveline. Aprender a Ler: Vencendo o Fracasso. SP: Cortez, 1994, p. 10.
(2) NUNES, Lygia Bojunga. Livro. Um encontro com Lygia Bojunga Nunes. RJ: Agir, 1988, p.7-8.
(3) FERREIRA, José Gomes. "(Descoberta da 'outra' matemática)". In A Escola na Literatura. Antonio Nóvoa e Jorge Ramos do Ó (org.) Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1997, p.131.
(4) CHARMEUX, Eveline, op. cit., p.89. * fotos de Harvey Finkle IN Readers. A Book of Postcards. San Francisco : Pomegranade, 1996. BIBLIOGRAFIA MÍNIMA BRAGATTO FILHO, Paulo. Pela Leitura Literária na Escola de 1º Grau. SP: Ática, 1995. CHARTIER, Roger. A Aventura do Livro. Do leitor ao navegador. SP: EDUNESP, 1998. LAJOLO, Marisa. Do Mundo da Literatura para a Leitura do Mundo. SP: Ática, 1993. MAGNANI, Maria do Rosário M.. Leitura, Literatura e Escola. SP: Martins Fontes, 1989. SILVA, Ezequiel Theodoro. Criticidade e Leitura. Ensaios. Campinas: ALB & Mercado de Letras, 1998. ZILBERMAN, Regina. A Leitura e o Ensino da Literatura. SP: Contexto, 1988. ZILBERMAN, Regina (org.). A Produção Cultural para a Criança. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1982.