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Mudando o pais pela leitura

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Texto de Jason Prado

O primeiro conceito de cultura remete à lavoura. Plantio, cultivo e colheita.
Definidora do ideário humano, é ela, também, polisêmica; de amplos e variados sentidos. Mas sempre associados à germinação e à vida, ao intervalo, seja de plantas ou povos, entre o nascer e o morrer. Intervalo de todos, intervalo contínuo, que só ganha sentido na soma de suas individualidades. Somos todos parte da safra, não importa nosso tamanho.

Pois olhando assim pro nosso torrão natal, como um vasto campo de culturas, é que começamos a notar uns pequenos plantios transgênicos. Germinam, aqui e ali, sementes mutantes. Não dessas que foram lapidadas pela natureza, em sua sábia adaptação às adversidades, nem daquelas nascidas de anos de pesquisa, mas incubadas nos desvãos da terra, na adubagem desmedida, na irrigação preguiçosa.

Não se trata de joio no trigo, praga na lavoura, nem de frutos estragados.

É apenas um cultivar exótico, de espécie parecida, porém diferente, cuja brotação começa a ocupar espaço.

Os encarregados dos campos, mesmo sobrecarregados com suas rotinas de plantar, cuidar e colher, já notaram essas folhagens sobressaindo. Avisaram aos donos da terra, que estão ocupados com as delicadas operações de vender, com a instabilidade dos preços, com a intrincada distribuição aos mercados. Mas, ainda assim, recomendaram chamar os especialistas.

Esses estudam o caso. Orientam tomar medidas de contenção, isolar algumas áreas, promovem encontros e pesquisas que certamente permitirão compreender o fenômeno.

Mas a coisa sempre rebrota. Do nada, vem na forma de um frágil pedido de socorro à beira da estrada. Lorena, oito anos, só e com o braço quebrado, trinta horas pedindo ajuda no acostamento, quando alguém parou para ajudar.

Outras vezes despenca de uma janela, Isabela! Faz muito barulho ao chegar, mas já se tornou paisagem. Pais que agem.

Mães que ensacam bebês e lhes roubam o destino de uma morte incerta. Marcola? Militares de alto coturno que mercadejam o povo. Políticos obrando incansáveis, pelo descrédito da democracia.

Ervas transgênicas de nossa cultura, nascidas, sim, nas escolas que abandonamos por exagero ou descaso. Não são melhores nem piores que os frutos que semeamos. São apenas outra coisa.

Os cultivares que conhecemos, de flores vistosas e frutos virtuosos, que alimentam ao corpo e à alma, requerem lavradores mais caprichosos, conhecedores da terra, das sementes e das medidas das coisas.

Professores preparados de verdade para dosar valores, fertilizar consciências e encorajar crescimento. Daqueles que despertam vocações e inspiram carreiras.

A educação precisa urgentemente de planos, projetos e ações sérias e comprometidas. Nada mirabolante. Nada que custe milhões. Nada para daqui a quinze anos. Precisamos de soluções práticas, para hoje e amanhã. Coisas a que não devemos chamar de “políticas” para não impregná-las com este sentimento comezinho, esquivo e aderente que a palavra está adquirindo.

Essa cultura, por mais avançadas que sejam as tecnologias, não pode abrir mão dos manuais.
Isso, manuais. Livros à mão, para quem quiser ler.

Não livros didáticos, nem cartilhas obscurantistas, com receitas de felicidade. Livros de literatura, que nos ensinam os contornos da humanidade. Livros que registram as leis universais, mas também as individualidades, as singularidades das lavouras, dos frutos e colheitas, para que o futuro não seja incerto nem uma eterna promessa.

Plantios feitos com essas técnicas e ferramentas merecem o nome de “boas culturas”. Culturas com cê maiúsculo, onde transgênicos não desejados, pragas e ervas daninhas não prejudicam a safra, nem se tornam espantalhos de nós mesmos.

*Este texto foi publicado na Revista do Sesc em julho de 2008.


[Política da Leitura]
Texto de Jason Prado

Pela primeira vez concordo plenamente com o Sr. Galeno Amorim e seu blog Brasil que Lê: já passou da hora de se fazer uma Política do Livro e da Leitura nesse País.

Pena que ele não tivesse constatado isso antes, quando, na condição de criador e coordenador do PNLL – Plano Nacional do Livro e da Leitura, tinha todos os instrumentos para fazer o que quer que fosse.

Galeno chama atenção, hoje, por conta da publicação dos resultados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, para o fato de que as escolas não estão preparadas para o trabalho com a leitura. Mas insiste na idéia de que a criação de bibliotecas seria a solução do problema.

Seu padrinho político (quem o conduziu ao Planalto) foi o segundo homem da República no primeiro mandato de Lula, o que lhe garantiu forças suficientes para fazer com que o Governo encampasse um lobby das editoras capitaneado pelo Senador José Sarney.

Lobby este que isentou a cadeia produtiva do livro de todos os impostos, sob a premissa de que seus agentes econômicos devolveriam, espontaneamente, parte do que embolsariam (1% dos 14% economizados), como verba para criação de um fundo destinado à promoção da leitura. Diga-se de passagem, fundo que nunca saiu do papel.

Não precisamos repetir que os impostos retirados dos livros, se gastos com a compra de acervos e formação de mediadores de leitura, fariam muito mais pelo Brasil que não lê do que no lugar onde foram parar.

A questão da leitura na escola é muito mais grave do que parece.

A começar pelo que a sociedade brasileira espera da escola: a metade de cima se encastelando no que considera “ensino de qualidade”, ao mesmo tempo em que segrega a massa, o grosso da população, numa escola pública à qual não dá mínimas condições de existência.

A mesma sociedade que pode pagar 60, 100 reais por um livro desonerado de impostos, ou 200, 300 por um jantar ou um par de sapatos, se ilude pensando que o professor pode alfabetizar e encantar crianças com livros e literatura, ganhando pouco mais de R$ 700,00 por mês. É menos do que ganham um gari, um motorista ou uma empregada doméstica.

Pior: entrega essa tarefa a professores secundaristas, muitas vezes formados há uma ou duas décadas, e que nunca receberam nenhuma orientação acadêmica. Professores que não lêem, e que nunca aprenderam a trabalhar a leitura, nem para si, nem para os outros.

Não é por acaso que, segundo revela uma pesquisa da Unesco, o sonho dos professores das escolas públicas é matricular seus filhos numa escola particular.

Assim se inicia o reconhecimento do fracasso do ensino público.

Que passa pela certeza da evasão; pelo desrespeito físico e moral ao professor e pela aniquilação de sua auto-estima.

Pela convicção de que é um ensino de baixa qualidade, porque é destinado aos desassistidos, àqueles de quem se espera apenas um “polimento”, para que suas teimosas existências não nos criem constrangimentos nem embaraços quando nos defrontamos com eles.

Fracasso que o MEC quer concluir reservando vagas, para os que dele emanam, nas universidades públicas, ditas de excelência.

Por que será que o ensino superior privado se tornou num negócio tão próspero no Brasil?

Realmente, já passou do tempo de se fazer política de leitura nesse País.

Mas não acredito que se possa mudar o quadro atual de coisas apenas guarnindo as escolas e as esquinas com livros. Isso seria a continuidade de uma política do livro, na qual o Brasil vai muito bem obrigado.

Política de leitura é outra coisa.

Passa, sim, pela escola e pelos governos em todos os níveis. Mas não é só com verbas e licitações que se fazem políticas. Por enquanto está faltando vontade, seriedade e sonhos.

Sonhos que os livros ajudariam a construir, mas que não construiriam sozinhos.