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Leia Brasil conversa com a escritora Gina Leite

Talvez o nome ainda não seja conhecido, mas isso é questão de tempo para a autora Gina Leite, uma baiana cheia de garra que, lutando contra as adversidades, lançou sozinha o livro Como se fosse o mesmo céu, seu  primeiro livro de contos.  Poeta e fotógrafa, formada em Comunicação pela Universidade Federal da Bahia, Gina participou em 1998 da antologia poética A última palavra, resultado do Concurso Nacional Prêmio Luiz Ademir de Literatura Brasileira. Neste mesmo ano, participou da coletânea de poesia e prosa Release.

Em Como se fosse o mesmo céu, a autora narra três histórias cada uma com 10 capítulos curtos. As narrativas têm uma linguagem próxima da poesia e tratam de temas intimistas, como o amor, o relacionamento humano, a liberdade, a ausência do outro, a saudade, o sofrimento, a necessidade de mudança. A Leia Brasil fez uma entrevista com a escritora e ela nos contou sobre o processo criativo até o produto final, além claro, de amor, matéria prima desse belo livro.

LB) Como surgiu a ideia de escrever Como se fosse o mesmo céu? Você escreveu os poemas/contos pensando já na ideia geral do livro ou foi uma coincidência que mais tarde deu origem ao livro?

GL - Os elementos do livro começam a germinar em 1994, quando comecei a coletar tudo que eu escrevia: cartas, diário, poemas, blogs, cartões-postais, poemas. Em 2005, ao invés de escrever exclusivamente sobre vida cotidiana, comecei a experimentar a criação de uma ficção poética. Esta história, no entanto, não conseguia se afastar de mim, ela foi construída com trechos destes onze anos de textos autorais.

No primeiro momento escrevi uma história que chamei Como se Fosse o Mesmo Céu, que era composta de dez  micro capítulos ou dois monólogos que não se cruzam - dois espirais paralelos. Finalmente eu havia encontrado uma forma literária que refletia meu modo de criar - não era conto, nem poesia, não era um discurso absoluto nem era linear, era uma unidade feita de unidades de fragmentos. Tendo chegado a esta forma de dividir o que eu reconhecia como conto em unidades poéticas, dei início a uma nova história ainda bastante impregnada com o discurso de Como se fosse. Em um determinado momento, me dei conta de que eu não estava escrevendo uma história nova, estava, na verdade, tecendo a primeira parte da história ora escrita. Estas duas histórias deram título ao livro.

Sobre o Vento, última história do livro, tem um processo criativo diferente, é um monólogo feito de unidades poéticas que compõem uma narrativa mais evidente - ao contrário de Como se Fosse, cujo roteiro serve apenas de alinhavo para a construção poética.

LB) A edição do livro toda foi independente. Você pode nos contar como foi esse processo?O que um autor iniciante deve fazer para conseguir publicar um livro caso não haja suporte de uma editora? Custos, parcerias…

GL - O processo foi longo… Uma vez que as duas partes de Como se Fosse estavam prontas, convidei diversos artistas visuais para participar do livro. Cada uma das vinte unidades poéticas foi ilustrada por um artista, Sobre o Vento ganhou uma partitura original de flauta - tudo feito através do e-mail entre 2005 e 2006. Em 2006 conheci Inara Negrão, uma designer incrível que abraçou o projeto do livro, seu compromisso e carinho com o projeto me incentivaram bastante. Wladimir Cazé foi outra pessoa fundamental neste processo, com sua experiência como autor, ele me aconselhou durante todo processo editorial e fez uma dedicada revisão do livro. Wladimir é um dos fundadores do coletivo de escritores Edições K, que lançou mais de 15 títulos de autores independentes em apenas dois anos. Não há como falar do livro sem falar deles, esse processo foi nosso dia-a-dia durante quase um ano.

Apesar de caminharmos nas longas estradas da produção independente, eu acreditava que poderia chegar a alguma editora que se interessaria pelo livro. Em São Paulo, tentei contato com algumas poucas, mas não tive sucesso. Passei a encarar Como se Fosse como um livro-demo, um produto de qualidade que poderia apresentar para uma editora quando fosse vender outra idéia.

No final de 2006 fui contemplada com o prêmio de melhor conto na 1a edição do concurso literário Bahia de Todas as Letras, realizado pelas editoras Via Litterarum e Editus/UESC. Recebi um prêmio em dinheiro que foi integralmente destinado à parte do pagamento da impressão do livro.

O lançamento aconteceu final de 2008 com uma tiragem de 500 exemplares. Após 242 livros vendidos foi possível recuperar o investimento de pré-produção, impressão, coquetel e manutenção do domínio do site durante dois anos. Em um primeiro momento, a inserção dos livros nos pontos de venda não foi complicada. Procuramos livrarias e lojas de CDs de Salvador. O acordo em geral foi feito através de contrato de consignação e pagamento mediante entrega de nota fiscal avulsa disponibilizada na Secretaria de Fazenda do estado (com isenção de ICMS, é importante lembrar). Para um escritor independente, no entanto, muitas vezes é mais vantajoso realizar venda direta em eventos.     

LB) Um traço interessante do seu livro é esse hibridismo de gêneros literários, já usado por outros autores como Carlos Drummond de Andrade, que mescla prosa e poesia. Quais autores te influenciaram/influenciam? Como se deu seu interesse por poesia?

GL - Dois livros me influenciaram bastante. Cronologicamente em primeiro lugar, O Bom Soldado, de Ford Madox Ford, e mais tarde A sombra do Arco-Íris, de Malba Tahan. Meu interesse pela poesia não tem data de batismo. O início da adolescência foi um período muito intenso de leitura não só de poesia, mas também de outros gêneros literários.  

 LB) A ONG Leia Brasil é fomentadora do hábito e da importância da Leitura. Qual importância os livros e a leitura tiveram na sua vida?

Como fotófila e amante dos idiomas, os dias chegam primeiro aos olhos. A palavra faz parte do meu cotidiano como cores, formas, texturas, volumes e sombras. A leitura é uma grande riqueza, ela oferece a possibilidade de compartilhar visões, renovar as interpretações de mundos, compreender, se questionar, ampliar o campo de referência inclusive para percebermos onde estamos, quem somos. A leitura é fundamental também para ampliar o sentido visual, melhor perceber as narrativas de imagens, desenvolver uma a percepção curiosa, ativa, crítica.

 LB) Em Como se fosse o mesmo céu os eus líricos são dividos entre homem e mulher, um casal que dialoga a cada poema e cada um demonstra sua visão sobre o amor. A linguagem é poética, sem deixar de ser clara e simples. O que te inspira a abordar o amor e como você enxerga as relações pós-modernas, que a cada dia aparentam tão fluídas, ou como diria o escritor Zygmunt Bauman,  “líquidas”?

GL - Minha inspiração é a experiência de sentimentos, que durante o amor fica mais aguçada. A idéia de que as pessoas experimentam o amor de forma distinta sempre me fascinou. Perceber o amor de modo diferente implica, em primeiro lugar, em compreender que não existe um modelo universal do relacionar-se. Cada ponte é feita, portanto, com a troca de materiais disponíveis e com a experiência prévia de cada parte. “Como se fosse” aborda principalmente da vivência do amor e seu desequilíbrio, a dificuldade de expressão e também a fragilidade dos sentimentos.

 LB) Você já tem um novo projeto literário? Caso sim, pode dizer do que se trata?

GL - Tenho dois projetos possíveis para o próximo ano. Um livro cuja narrativa é construída a partir de um desenho geométrico que mais uma vez deverá envolver artistas visuais e também um CD com algumas composições poéticas trabalhadas por músicos parceiros.

Quem ficou interessado em comprar o livro e conhecer mais do trabalho de Gina Leite é só visitar o site Como se fosse o mesmo céu.

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