Sobre rocas e fusos
Ou: Não existe riqueza inocente!
Jason Prado
Dezembro de 2008
Há alguns anos transita por entre as escrivaninhas do MEC e as comissões do Congresso a idéia de que se pode valorizar a escola pública brasileira (e, por conseqüência, o ensino público), reservando-se cotas nas universidades federais para os alunos oriundos daquela instituição.
Nada pode parecer mais linear e singelo, quando consideramos que o ensino superior gratuito está fora do alcance daqueles alunos, despreparados que foram para disputar as vagas no vestibular.
Esta é a lógica: é preciso acabar com o favorecimento que desonera os ricos de pagarem pela excelente universidade de seus filhos. Sim, é preciso registrar esse fato: a universidade pública ainda é uma ilha de excelência.
Por trás desse argumento, ou a suportá-lo como um de seus pilares, está a idéia de que isso promoverá uma equidade social. Garantindo acesso aos melhores cursos universitários para uma parte da população que não pode se preparar nos colégios e cursos particulares, cria-se a perspectiva de que será possível, num curtíssimo espaço de tempo, formar uma elite profissional a partir das classes menos favorecidas.
Desconsiderou-se o fato de que o ambiente universitário faz parte do curso universitário e onerou-se o terceiro grau com a suplência do ensino médio e fundamental. Pergunta-se: como desenvolver o pensamento e a pesquisa acadêmica com a metade dos alunos despreparados?
De tanto circular pelos gabinetes de Brasília, a proposta acabou sendo aprovada por voto de lideranças na Câmara dos Deputados na segunda quinzena de novembro.
Não teve alarde. Pasme: não gerou uma única manifestação de educadores. Não motivou greves de estudantes, nem protesto inflamado do CRUB[1]. Tampouco suscitou campanhas da nossa imprensa.
Tudo muito discreto e eficiente, colocando o Brasil nos rumos da pós-modernidade das sociedades inclusivas.
Ninguém menos que o Deputado Paulo Renato de Souza ajudou a aprová-la. Ex-Reitor da Unicamp e ex-Ministro da Educação, profundo conhecedor das estruturas educacionais, era de quem mais se esperava a capacidade de enxergar atrás dos biombos.
Afinal, que escola é esta que precisa de cotas? Que aluno é este que se deseja proteger?
Melhor não ir direto ao assunto. Então, vamos ao desvio.
Com o propósito de instrumentar discussões sobre drogas, circula em nosas escolas um livro paradidático intitulado Doces Venenos[2], de onde nos chegou um excerto intitulado “Sobre rocas e fusos”.
Com linguagem atual e acessível, faz uma releitura de A Bela Adormecida, um daqueles contos estruturantes[3] da Idade Média, compilados no século XVII por Chales Perrault[4] e no século XIX pelos irmãos Grimm[5]
Muito bem engendrado e escrito, o texto se sustenta sobre duas premissas:
· A história da Bela Adormecida não teria ocorrido se seus pais, antes de mais nada, tivessem convidado a bruxa má e convivido com suas diferenças; e
· Haveria menos chance de acontecer a tragédia, caso os pais de Bela tivessem praticado uma educação aberta e compreensiva, alertando a filha para o perigo, em vez de banir as máquinas de fiar.
Servindo a um propósito nobre, o texto foi desvirtuado a ponto de trocar “uma fada de quem ninguém mais tinha notícia”, na versão de Perrault (ou não convidada porque o rei não tinha um prato de ouro para servi-la, na versão dos Grimm) por uma “bruxa má e vingativa”, que deliberadamente não foi convidada para evitar constrangimentos com sua “feiúra e maldade”.
Com isso o texto deslocou as questões centrais da maldade, do sentimento de rejeição e da mágoa – as razões que de fato movem a fada não convidada a rogar a famosa praga do fuso – para a mais banal mensagem manipuladora de que já se teve notícia: assumindo nossos erros e não discriminando ninguém, nenhuma ameaça será capaz de nos atingir.
Ora, todos sabemos que de uma mesma palavra podem ser extraídos vários significados, a depender de quem a emprega, de quem a reconstitui, das circunstâncias em que foi dita, das referências individuais etc.
Certamente o texto se prestava a uma discussão entre professores e alunos para instrumentar algum exercício de compreensão de leitura[6]. Afinal, num mundo em que a informação se processa à velocidade da luz, e seres humanos carregam chips até para regular os batimentos cardíacos, a compreensão de leitura é o marco divisório do binômio incluído / excluído.
O problema está aí: essa escola que se quer proteger com as cotas nas universidades federais não é competente para ensinar a ler. Basta olhar os indicadores do MEC. Segundo o IDEB – Índice de Desenvolvimento da Educação Básica – de 2007, enquanto as escolas públicas obtiveram média 3,2 no ensino médio, as particulares ficaram com 5,6.
Outro dado do MEC, o SAEB, em 2001[7] revelou resultado ainda mais cruel: 95,4% dos alunos na quinta série do ensino fundamental, daquele ano, não atingiram o conceito “satisfatório” de compreensão de leitura exigido para sua escolaridade.
Sem compreender a leitura, essas crianças também não compreendem o mundo que as cerca. Pior, não compreendem o que a escola ensina, porque o conhecimento é transmitido por palavras. Com isso vão perdendo a auto-estima e se excluindo, engrossando as estatísticas de abandono, que nos dão conta de que, dos alunos que entram, 50% saem sem concluir o ensino médio.
Por que nossa escola pública é assim?
Uma pesquisa intitulada A qualidade da educação sob o olhar dos professores, promovida pela Fundação SM (FSM) com o apoio da OEI – Organização dos Estados Ibero-Americanos – e recém divulgada, revela que 65,8% dos professores do ensino médio acreditam que as escolas particulares oferecem um ensino melhor aos seus alunos.
Embora os cursos de formação de professor não tenham uma única hora de práticas leitoras em suas ementas, a leitura está longe de ser um dos problemas do ensino, como revela o documento da FSM. Simplesmente, a leitura não faz parte da lista de problemas do ensino, segundo os professores.
Uma outra maneira de se analisarem essas questões é pelo prisma do sucateamento do ensino público. As escolas federais e os colégios de aplicação das universidades públicas obtiveram média 7 no IDEB do mesmo ano 2007. Muito acima, inclusive, que a média das particulares.
Esses alunos não precisam de cotas por uma única razão: suas escolas foram construídas para assegurar privilégios para os filhos das elites brasileiras. Pedro II, CEFETs e Colégios Militares são o sonho de consumo de grande parte da sociedade.
Quando o país começou a trocar a vida rural pela urbana, na metade do século passado, também foi a hora da adesão à industrialização. Naquele momento foi crucial a expansão do ensino para uma base maior da população, não só para qualificar a mão-de-obra[8], mas também para criar um mercado interno.
O apetite por uma classe média “capaz de assinar seu nome”, e o crescimento das cidades rapidamente transformaram as deficiências do Estado em oportunidades de negócios. Foi naquele momento - quando optou pela quantidade – que a escola pública se vocacionou para a “alfabetização desqualificada” da população, deixando com os estabelecimentos particulares a tarefa de formar os que não se credenciavam para as fechadíssimas escolas da elite.
Nunca é demais lembrar que na década de 60, ensino pago no Brasil era sinônimo de incompetência – fosse dos alunos em conquistar a vaga por méritos, fosse de seus familiares em conquistá-la por pistolões.
Hoje o quadro é o inverso: da pré-escola ao fim do ensino médio, é um salve-se quem puder. Segundo um estudo da Unesco (O perfil dos professores brasileiros, Editora Moderna, 2004), nem os professores das escolas públicas querem matricular seus filhos nesses estabelecimentos. Nada menos que 54% deles, de fato, pagam escolas para seus filhos, independentemente do salário que recebem.
Mas isso ainda não aconteceu com o ensino superior.
Embora o número de instituições privadas venha aumentando ano a ano, com milhares de vagas sendo oferecidas[9] em cursos sem qualquer perspectiva de ocupação profissional, as universidades públicas se mantiveram credoras de altíssimo prestígio.
Entretanto, por mecanismos cruéis como violência e competição, os filhos da verdadeira elite já não freqüentam nossas universidades. Há um enorme contingente de brasileiros estudando e morando em Harvard, Berkeley, Oxford e outras do gênero.
Parafraseando Eduardo Galeano, não existe riqueza inocente.
Os muito ricos exploram o Estado agiotando o Tesouro e especulando nas bolsas. Os bancos são donos de mais de 70% de todos os ativos brasileiros. Ambev, Vale, Bradesco e outros grandes empregadores há mais de uma década não recrutam aqui seus dirigentes.
Então, será que essas cotas são mesmo para beneficiar a massa e garantir a ela o direito de acesso a um ensino de qualidade?
O que acontecerá com o ensino público superior que, de uma hora para outra, perderá a efervescência de alunos bem preparados?
Como serão seus cursos, com turmas de 60, 70 alunos, metade dos quais sem base de conhecimentos gerais e sem compreensão de leitura?
Como naquela história da Bela Adormecida, em que o foco foi desviado para atender a um propósito específico – ainda que se sacrificassem valores tão essenciais à estruturação social – , aqui também encontramos um vício de raciocínio: por que estão fazendo isso?
Mais uma vez, o entendimento vem da leitura. Ao ler o texto Sobre rocas e fusos, qualquer pessoa habituada à leitura sentirá vontade de conhecer a história original. Minimamente para ver como ela foi construída, como os fatos se desenrolaram, quais os verdadeiros motivos das personagens.
Lendo a história, o leitor irá se deparar com as questões originalmente propostas e poderá, conseqüentemente, identificar o que foi mudado e, em alguns casos, até os porquês da mudança.
Nesse exercício, que ficou conhecido como argumento dialético[10], ainda será possível elaborar uma conclusão totalmente diferente das que foram aparentemente propostas, sugerindo novas leituras, novas abordagens e novas questões.
Lendo as cotas com outros olhos, podemos nos deparar com uma situação curiosíssima. Estão à frente de instituições de ensino algumas das figuras mais influentes da República – do ex-Ministro Mares Guia ao Senador Salgado (aquele cabeludo sem votos que defendia o Senador Renan Calheiros). Sem falar de outros sobrenomes polpudos à frente de instituições como UNIP, Positivo e Cesgranrio.
Depois de ter experimentado um crescimento exponencial nas últimas décadas, à custa do sonho de mobilidade social, como essas instituições – algumas com faculdades em diversas regiões do país, com centenas de milhares de matriculados – vão continuar expandindo o negócio do ensino superior e dos banalizados emibiêis que saturaram o Brasil?
Positivamente com uma saída de gênio: acabando com a concorrência desleal das universidades públicas, a qual inflaciona os salários dos docentes e ofusca a clientela com comparações injustas!
Novamente, como na história da Bela Adormecida, depois que relemos os textos podemos até formular perguntas aparentemente melhores e mais espertas.
No caso do conto de fadas, uma pergunta que não quis calar foi esta: por que a madrinha boa, que minimizou a praga da fada magoada, fez a princesa dormir cem anos? Isso teria sido uma benesse ou outro castigo?
No caso da Lei que cria reserva de mercado para a ineficiência, a pergunta é parecida: por que teremos que esperar cem anos para entender que a educação precisa ser melhorada na base, com uma grande reforma que a transforme, dotando-a de escolas de excelência para todos os brasileiros?
[1] CRUB – Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras
[2] Doces Venenos – conversa e desconversas sobre droags. Lidia Rosemberg Aratangy. Editora Olho D’água, 2006.
[3] São assim chamadas as histórias que estruturam os valores civilizatórios pelo modo com que nos levam a refletir sobre as conseqüências de nossos atos.
[4] Perrault, Charles. França, 1628 – 1703.
[5] Jakob Ludwig Karl (Alemanha, 1785 – 1863), e Wilhelm Karl (Alemanha, 1786 – 1859).
[6] É preciso que se registrem duas coisas: primeiro, o mérito das escolas particulares brasileiras, que enfrentam de forma bastante eficiente os desafios da promoção da leitura; segundo, a ressalva à intencionalidade do autor daquele texto, com o emprego de outro, extraído de A cidade das palavras, de Alberto Manguel (Manguel, Alberto, Companhia das Letras, 2008): “… a identidade em transformação é o tema de nossas melhores histórias, que rememoram a experiência de nosso passado e imaginam uma vida melhor como modelo para o presente; mas essa mesma identidade pode, volta e meia, tentar impor histórias inverídicas a nosso consumo, seja para justificar uma posição de poder, seja para extirpar o poder de nossas leituras.”
[7] A partir de 2001 o SAEB passou apresentar dados relativos à proficiência em Língua Portuguesa, e não mais em Leitura.
[8] Termo típico da sociedade industrial.
[9] Os marxistas creditam essa expansão da oferta a uma bem engendrada política de desvalorização do trabalho, promovida pelo Capital e pelo Estado.
[10] A dialética como arte do diálogo consiste, de forma rudimentar, em tomar-se uma proposição qualquer (um Logo) e opor a este dado uma negação, um Mas não. Dessa oposição deverá surgir uma terceira idéia, ou o Logo, não. Para os marxistas, consiste na técnica de se tomar uma Tese, questioná-la pela formulação de sua negação, ou Antítese, de forma que de ambas se possa extrair o que realmente importa, ou a Síntese.