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Mudando o pais pela leitura

texto de Marta Morais da Costa sobre o encontro do REPAR em junho de 2008.

Os encontros do Programa de Leitura Petrobrás-REPAR em 2008, que mostram como assunto preferencial, apresentações e discussões a respeito da presença africana na composição da identidade brasileira, têm propiciado falas e questionamentos sobre aceitação, exclusão, preconceitos de toda ordem e, acima de tudo, os impactos disso sobre sentimentos e convicções dos participantes, e também de seu trabalho na formação de leitores.

Uma das frases mais contundentes dessas indagações foi proferida por Júlio Emílio Braz, ao citar o conselho recebido de sua mãe: “Ruim não é você ter vergonha do que é. Ruim é você querer ser o que os outros querem que você seja.” A diferença entre as duas identidades e a resistência às imposições foram a tônica do encontro do mês de junho.

Ele começou por uma série de homenagens, das mais pessoais à simbólica. Foram homenageados pelos participantes o engenheiro João Adolfo Oderich, gerente-geral da REPAR e a matemática/comunicóloga/relações públicas Ivete Rocha, do Espírito Santo.

Ivete Rocha está deixando a coordenação do programa de Leitura da REPAR, que dirigiu com sucesso ao longo de anos, conquistando prêmio nacional para pó programa e, principalmente, o reconhecimento e sincera gratidão das pessoas com quem conviveu ao longo desses anos. Sua simpatia e operosidade mantiveram a gestão eficaz e eficiente do programa.

Outro homenageado foi o poeta Vinícius de Moraes que teve dois sonetos citados por Jason Prado e repetidos no coração dos professores, representando na fala poética o tom da homenagem à Ivete Rocha. “Soneto da despedida” e “Soneto da fidelidade” expressaram em versos de grande beleza o agradecimento dos presentes à ex-coordenadora do Programa.

Da abertura dos trabalhos e da fala de Jason Prado, aliadas à conversa com o autor Júlio Emílio Braz foram nascendo temas que encontraram eco nas histórias contadas por Rosângela Rauen e nas experiências e palavras da educadora Ana Lúcia Souza. A simbiose dessas palavras pode ser sintetizada em dois grandes blocos: os ritos de passagem na casa da beleza e o conhecimento enquanto pensamento.

1    OS RITOS DE PASSAGEM

A sabedoria humana está ligada, sem dúvida, entre outras faces, à aceitação da vida como uma sucessão de ritos de passagem. Também tratam deles os poemas de Vinícius de Moraes, porque despedida e fidelidade implicam momentos de nossas relações com o outro e com a vida. Despedir-se para renascer e mostrar a fidelidade que cada momento da vida nos merece representam a dádiva do poeta “o branco mais negro do Brasil”, aplicável ao momento vivido pelo programa, ou seja pela ligação com a presença do negro em nossa história nacional.

Como não poderia deixar de ser, num programa destinado à formação de leitores, a passagem do estágio de analfabeto (funcional ou não) ao leitor maduro foi assunto da fala de Jason Prado, presidente da ONG Leia Brasil, ao retomar a caminhada da parceria com a REPAR marcada por posições claras e dominantes: da sociedade exclusiva à sociedade inclusiva; do professor menos ao professor valorizado (pesquisa sobre leitura e sobre docência); do reconhecimento à posição assumida, ainda que pelo avesso como pôde ser comprovada no filme “Vista minha pele”. Passagem que, se implica a perda de crenças e atitudes, pode iniciar uma nova caminhada, um novo estado de consciência e de desejo de alterações. Não foi outra a mensagem de Ulomma, a casa da beleza, do mito africano: “Seja meu filho/ porque você nasceu de meu ventre”.

Essa posição de reconhecimento e aceitação, para melhor investir em transformações necessárias, ficou muito evidente na fala de Júlio Emílio Braz e em sua história de vida de homem negro, pertencente a uma comunidade que vem realizando seus ritos de passagem na sociedade brasileira.

2    CONHECER ENQUANTO PENSAR

Neste segundo bloco de reflexões, fundamentadas nas diferentes falas do dia, avultam a idéia de que a ação de conhecer está diretamente relacionada à de pensar. A questão se colocou já quando, no filme apresentado por Ana Lúcia Souza, “Vista sua pele” um dos personagens pergunta ao outro: “Que futuro sem um diploma na mão?”. A importância do estudo e a necessidade da capacitação, não apenas para o trabalho, mas para a convivência consigo mesmo e com os demais membros da sociedade passam, inevitavelmente, pela escola. E, dentro dela, pela formação para a leitura dos mais diferentes textos das mais diversas linguagens, por que, segundo Júlio Emílio Braz, “Quando você tem pouca leitura, você só olha a casca”.

Essa valorização da leitura não significa, na fala de todos os presentes, a acumulação de livros e textos, mas aponta para um modo específico de ler, associado ao refletir e, sobretudo ao indagar. Segundo argumenta, com muita propriedade, Ana Lúcia Souza, “Olhar (pensar) nosso papel é fazer perguntas, o sal da vida”.

Esse comportamento que desacomoda, que insiste na mudança, é uma exigência que a escola brasileira tem menosprezado, preferindo tratar as questões da educação em forma de acomodação e assujeitamento, o que significa a total negação do que deveria ser a essência do trabalhos dos educadores. Vem, novamente, da experiência de vida de Júlio Braz a condensação em palavras de uma verdadeira sabedoria educativa, relegada a segundo plano na escola atual: “Quando se rima esperança com espera, você não tem futuro.”. Essa exigência de mudanças no trabalho docente e em sua avaliação bate de frente com a tradição dos provérbios africanos, em especial, com uma mensagem que deveria calar fundo na consciência da sociedade brasileira e produzir um olhar diferente para a educação e seus principais agentes, o aluno e o professor: “É necessário uma comunidade inteira para educar uma criança.”.

Foi um dia de aprendizagem e reflexão: das vivências da cor, da africanidade e da negritude brotaram lições para a prática docente e para as práticas na vida na contemporaneidade.

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