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04 Jul, 2008 às 6:42 pm
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Blog Leia Brasil
Mudando o pais pela leitura
Texto de Jason Prado
O primeiro conceito de cultura remete à lavoura. Plantio, cultivo e colheita.
Definidora do ideário humano, é ela, também, polisêmica; de amplos e variados sentidos. Mas sempre associados à germinação e à vida, ao intervalo, seja de plantas ou povos, entre o nascer e o morrer. Intervalo de todos, intervalo contínuo, que só ganha sentido na soma de suas individualidades. Somos todos parte da safra, não importa nosso tamanho.
Pois olhando assim pro nosso torrão natal, como um vasto campo de culturas, é que começamos a notar uns pequenos plantios transgênicos. Germinam, aqui e ali, sementes mutantes. Não dessas que foram lapidadas pela natureza, em sua sábia adaptação às adversidades, nem daquelas nascidas de anos de pesquisa, mas incubadas nos desvãos da terra, na adubagem desmedida, na irrigação preguiçosa.
Não se trata de joio no trigo, praga na lavoura, nem de frutos estragados.
É apenas um cultivar exótico, de espécie parecida, porém diferente, cuja brotação começa a ocupar espaço.
Os encarregados dos campos, mesmo sobrecarregados com suas rotinas de plantar, cuidar e colher, já notaram essas folhagens sobressaindo. Avisaram aos donos da terra, que estão ocupados com as delicadas operações de vender, com a instabilidade dos preços, com a intrincada distribuição aos mercados. Mas, ainda assim, recomendaram chamar os especialistas.
Esses estudam o caso. Orientam tomar medidas de contenção, isolar algumas áreas, promovem encontros e pesquisas que certamente permitirão compreender o fenômeno.
Mas a coisa sempre rebrota. Do nada, vem na forma de um frágil pedido de socorro à beira da estrada. Lorena, oito anos, só e com o braço quebrado, trinta horas pedindo ajuda no acostamento, quando alguém parou para ajudar.
Outras vezes despenca de uma janela, Isabela! Faz muito barulho ao chegar, mas já se tornou paisagem. Pais que agem.
Mães que ensacam bebês e lhes roubam o destino de uma morte incerta. Marcola? Militares de alto coturno que mercadejam o povo. Políticos obrando incansáveis, pelo descrédito da democracia.
Ervas transgênicas de nossa cultura, nascidas, sim, nas escolas que abandonamos por exagero ou descaso. Não são melhores nem piores que os frutos que semeamos. São apenas outra coisa.
Os cultivares que conhecemos, de flores vistosas e frutos virtuosos, que alimentam ao corpo e à alma, requerem lavradores mais caprichosos, conhecedores da terra, das sementes e das medidas das coisas.
Professores preparados de verdade para dosar valores, fertilizar consciências e encorajar crescimento. Daqueles que despertam vocações e inspiram carreiras.
A educação precisa urgentemente de planos, projetos e ações sérias e comprometidas. Nada mirabolante. Nada que custe milhões. Nada para daqui a quinze anos. Precisamos de soluções práticas, para hoje e amanhã. Coisas a que não devemos chamar de “políticas” para não impregná-las com este sentimento comezinho, esquivo e aderente que a palavra está adquirindo.
Essa cultura, por mais avançadas que sejam as tecnologias, não pode abrir mão dos manuais.
Isso, manuais. Livros à mão, para quem quiser ler.
Não livros didáticos, nem cartilhas obscurantistas, com receitas de felicidade. Livros de literatura, que nos ensinam os contornos da humanidade. Livros que registram as leis universais, mas também as individualidades, as singularidades das lavouras, dos frutos e colheitas, para que o futuro não seja incerto nem uma eterna promessa.
Plantios feitos com essas técnicas e ferramentas merecem o nome de “boas culturas”. Culturas com cê maiúsculo, onde transgênicos não desejados, pragas e ervas daninhas não prejudicam a safra, nem se tornam espantalhos de nós mesmos.
*Este texto foi publicado na Revista do Sesc em julho de 2008.
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