Blog Leia Brasil

Mudando o pais pela leitura
[Política da Leitura]
Texto de Jason Prado

Pela primeira vez concordo plenamente com o Sr. Galeno Amorim e seu blog Brasil que Lê: já passou da hora de se fazer uma Política do Livro e da Leitura nesse País.

Pena que ele não tivesse constatado isso antes, quando, na condição de criador e coordenador do PNLL – Plano Nacional do Livro e da Leitura, tinha todos os instrumentos para fazer o que quer que fosse.

Galeno chama atenção, hoje, por conta da publicação dos resultados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, para o fato de que as escolas não estão preparadas para o trabalho com a leitura. Mas insiste na idéia de que a criação de bibliotecas seria a solução do problema.

Seu padrinho político (quem o conduziu ao Planalto) foi o segundo homem da República no primeiro mandato de Lula, o que lhe garantiu forças suficientes para fazer com que o Governo encampasse um lobby das editoras capitaneado pelo Senador José Sarney.

Lobby este que isentou a cadeia produtiva do livro de todos os impostos, sob a premissa de que seus agentes econômicos devolveriam, espontaneamente, parte do que embolsariam (1% dos 14% economizados), como verba para criação de um fundo destinado à promoção da leitura. Diga-se de passagem, fundo que nunca saiu do papel.

Não precisamos repetir que os impostos retirados dos livros, se gastos com a compra de acervos e formação de mediadores de leitura, fariam muito mais pelo Brasil que não lê do que no lugar onde foram parar.

A questão da leitura na escola é muito mais grave do que parece.

A começar pelo que a sociedade brasileira espera da escola: a metade de cima se encastelando no que considera “ensino de qualidade”, ao mesmo tempo em que segrega a massa, o grosso da população, numa escola pública à qual não dá mínimas condições de existência.

A mesma sociedade que pode pagar 60, 100 reais por um livro desonerado de impostos, ou 200, 300 por um jantar ou um par de sapatos, se ilude pensando que o professor pode alfabetizar e encantar crianças com livros e literatura, ganhando pouco mais de R$ 700,00 por mês. É menos do que ganham um gari, um motorista ou uma empregada doméstica.

Pior: entrega essa tarefa a professores secundaristas, muitas vezes formados há uma ou duas décadas, e que nunca receberam nenhuma orientação acadêmica. Professores que não lêem, e que nunca aprenderam a trabalhar a leitura, nem para si, nem para os outros.

Não é por acaso que, segundo revela uma pesquisa da Unesco, o sonho dos professores das escolas públicas é matricular seus filhos numa escola particular.

Assim se inicia o reconhecimento do fracasso do ensino público.

Que passa pela certeza da evasão; pelo desrespeito físico e moral ao professor e pela aniquilação de sua auto-estima.

Pela convicção de que é um ensino de baixa qualidade, porque é destinado aos desassistidos, àqueles de quem se espera apenas um “polimento”, para que suas teimosas existências não nos criem constrangimentos nem embaraços quando nos defrontamos com eles.

Fracasso que o MEC quer concluir reservando vagas, para os que dele emanam, nas universidades públicas, ditas de excelência.

Por que será que o ensino superior privado se tornou num negócio tão próspero no Brasil?

Realmente, já passou do tempo de se fazer política de leitura nesse País.

Mas não acredito que se possa mudar o quadro atual de coisas apenas guarnindo as escolas e as esquinas com livros. Isso seria a continuidade de uma política do livro, na qual o Brasil vai muito bem obrigado.

Política de leitura é outra coisa.

Passa, sim, pela escola e pelos governos em todos os níveis. Mas não é só com verbas e licitações que se fazem políticas. Por enquanto está faltando vontade, seriedade e sonhos.

Sonhos que os livros ajudariam a construir, mas que não construiriam sozinhos.

 

 

3 Respostas para “Jason Prado fala sobre a política dos livros no Brasil”
  1. Susan Blum Pessôa de Moura Diz:

    Parabenizo o texto do Jason pois abre um debate muito importante e que a Leia Brasil já percebeu: não adianta apenas livros. Precisamos capacitar quem trabalha com livros, tanto professores como bibliotecários.
    Trago aqui a discussão feita no livro “Leitura e animação cultural - repensando a escola e a biblioteca”, na pág 8 e 9, que os professores trazem o exemplo da França: a biblioteca como centro estruturador do currículo escolar.
    Mostram que lá, os “bibliotecários” são profissionais que tem um curso de graduação e que são convocados a cursar mais dois anos para serem capacitados a múltiplos acervos, diferentes suportes e variadas linguagens (vejam bem, eu falei linguagens e não línguas!). Podendo assim orientar, a partir de temas geradores, as práticas discentes de pesquisa (isso em conjunto com os docentes). Ou seja, é um conjunto de ações. Se os professores não lêem, não dão o exemplo (não forçado, mas demonstrando o prazer da leitura) isso dificilmente irá fluir.
    A importância da seleção das obras, indicação, trabalho, discussão, etc… formando assim não bibliotecas, mas sim centros culturais!
    Enfim… parabéns ao Leia Brasil pelo trabalho de excelência que realiza!

  2. MªLucia Diz:

    Penso que os livros precisam caminhar e encontrar aqueles que estão a sua espera. É preciso esforço , boa vontade e valentia .O professor pode e deve acordar para essa realidade.Todos serão beneficiados. A quem cabe dar o primeiro passo?
    Aquele que sente vontade de mudar e busca alternativas.
    Aquele que se esforça porque para mudar porque acredita
    que é possível.
    Aquele que sente diante da atual realidade, que sua valentia
    poderá mudar o destino de muitos .(e até o próprio).
    Penso que de minha parte devo fazer 99% e esperar dos demais o que conscientemente sente que deve fazer.
    o que julgar possível.

  3. Susan Blum Pessôa de Moura Diz:

    Apenas gostaria de citar aqui a aparição de Jason Prado no programa entre aspas, falando do resultado das escolas no Brasil.
    vejam em http://globonews.globo.com/Jornalismo/Gnews/0,,7494,00.html
    De minha parte, acredito que o Brasil deveria aumentar as expectativas das notas e que deveriam investigar o que está sendo feito de diferente em Brasília e no Paraná (que obtiveram os maiores índices)…
    Acredito que um dos fatores aqui do Paraná é o início de um trabalho mais sério com a formação dos professores, com busca de aperfeiçoamento (como Faxinal do Céu - por exemplo) . Mas isso deveria ser pesquisado, comprovado e então aplicado em outros lugares (principalmente nos que tiveram índice baixo, abaixo da meta). Poderia ser um início, não?
    Lógico que dar um salário mais decente também é importante, mas acho que incentivando os professores com cursos e palestras também ajuda. E se ele tivesse mais tempo e dinheiro para leituras, cinema, teatro e outras atividades, também ajudaria.

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