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28 Mai, 2008 às 2:55 pm
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Blog Leia Brasil
Mudando o pais pela leitura
Ananse, o homem-aranha, integrante provável da mitologia iorubá, consegue por sua persistência, esperteza e merecimento obter do deus Niami o baú das histórias que povoaram o mundo. Algumas delas se presentificaram no segundo Encontro de Leitura de REPAR em 21 de maio, em Araucária.
Primeiro se apresentou a história dos 31 anos da própria refinaria da Petrobrás no Paraná, na forma do contador-gestor Odilon Sottomaior, que trouxe a mensagem da “Gestão sem Lacunas”, com um dodecálogo de princípios que podem tornar a vida pessoal e de trabalho um tanto parecida com a dos felizes e realizados heróis dos contos populares: uma convocação de amor à vida, ao trabalho e a si mesmo. O primeiro e mais relevante dá título a este texto: “A vida em primeiro lugar”. Vida que Ananse preservou na natureza, sem deixar de colocá-la a serviço do bem maior da conquista do fogo das histórias que iluminam as mentes e o mundo. Assim como o faz Eduardo Galeano no pequeno texto intitulado “Mundo”, em que as pessoas são fogueirinhas de luz e calor diversas, mas irmanadas numa presença irradiante.
Em seguida, Jason Prado trouxe a história do próprio programa, num levantamento precioso das faces da leitura, do pragmatismo da ampliação vocabular, à percepção habilidosa da metáfora, do mundo interiorizado do imaginário e da subjetividade para a “libertação e geração da consciência crítica”. E no decorrer dessa história, o protagonismo da educação e dos educadores, capazes de romper os diques da ignorância e da marginalidade para que possa fluir a correnteza da sabedoria e da capacidade de aprender continuadamente.
No ponto de chegada desse percurso, uma pergunta não se cala: “O que nos ensinam as histórias e a literatura?” Uma primeira resposta: a capacidade de transgredir. Não a transgressão criminosa, não o erro que avilta, mas a compreensão de que a sábia expressão “Errar é humano” propõe, na sua generalização, ao menos três entendimentos para a palavra erro: como instrumento de controle social, como fator de perda econômica e, no que aos educadores interessa sobremaneira, o erro como “fundamento da aprendizagem”, como retomada do caminho, como possibilidade de um salto qualitativo. A leitura e a literatura têm condições de auxiliar os indivíduos a errar menos, ou a reestruturar-se mais rapidamente após o erro.
Uma terceira história, desta feita de vida e de escrita, apresentou-se na fala do professor e escritor Rogério de Andrade Barbosa, que abriu sua comunicação com um canto dos remeiros do rio São Francisco: “Eu sou branco/ eu sou negro/ eu sou índio /eu sou brasileiro”. E o tema do encontro fez-se palavra e poesia. Fez-se palavra ensinada no trabalho com os jovens da Guiné africana. Fez-se poesia com os mais de 70 títulos publicados, em que a afro-descendência encontrou abrigo em personagens, cantigas, comidas, cultura e poesia. Sua fala viajou pelas dificuldades do trabalho docente na Guiné recém-saída da submissão colonial, pelo interesse e entusiasmo dos alunos, pelos costumes matrimoniais e familiares, para desembocar num diário que se metamorfoseou em literatura e veio aportar no auditório numa bela história do pequeno pássaro catete, saudado por todos os presentes no formato de um cumprimento melódico: “Sani bonami/ Aiô, aiô” (“Como vão?” / “Eu vou bem”).
E as histórias continuaram a ser distribuídas: Lúcia Sartori trouxe a “Nega Fulô”, de Jorge de Lima e a narrativa de Kombu, do próprio Rogério Barbosa. O Coral da Petrobrás musicalizou narrativas de banzo e de saudades da pátria africana, forçadamente roubada. O mito de Luanda, paraíso perdido, espalhou-se pelo auditório.
O baú de histórias de Ananse guardava no fundo uma contadora com novos e outros baús: Maria Clara Albuquerque, do grupo “Confabulando”. E ela fez uma aula-espetáculo sobre a importância dos heróis, da oralidade e das narrativas primordiais, fundantes.
Sobre o palco da REPAR os professores presentes viram neblinar, chover e trovejar uma sacerdotisa de Ananse, a mediadora-contadora de histórias Maria Clara, com suas narrativas populares africanas e com sua narrativa pessoal da negra Felícia, outra sacerdotisa de Ananse, voz africana com sotaque mineiro. Os educadores puderam mais uma vez vivenciar o quanto pode a arte de um contador trazer as respostas para a aprendizagem e para a pergunta de Jason Prado sobre o poder da leitura como transgressão e superação do erro. A técnica vocal e gestual, a paixão pelo narrar, a memória viva das narrativas de fundação, o conhecimento revigorante, a vivificação do poder da palavra e da literatura corporificaram-se em Maria Clara e fecharam (ou abriram ainda mais?) o baú das histórias de Ananse naquele dia outonal de maio.
Texto de Marta de Morais da Costa
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