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26 Mai, 2008 às 2:16 pm
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Blog Leia Brasil
Mudando o pais pela leitura
As falas de Ivete Rocha e Jason Prado, anunciando um viés da temática da Brasilidade que desenvolvemos em 2007, escolhido pelos professores que participam deste Programa de Leitura da REPAR, iniciaram todos os participantes do primeiro encontro do ano de 2008 nas fissuras, desvãos e conhecimentos da presença africana na formação do povo brasileiro. Os 200 anos da chegada da Família Real portuguesa e os 120 anos da Lei Áurea, declarando livres os brasileiros e africanos escravos, trouxeram, a par das comemorações, momentos de reflexão e aprendizagem.
A importância da continuidade do evento para a formação em serviço dos professores, proporcionada pela Petrobrás e pela ONG LeiaBrasil, ficou ressaltada já na mesa de abertura, composta por João Adolfo Oderich, gerente da REPAR, Ivana S. Hofz, Secretaria de Educação de Araucária, Maria Luísa, Secretária de Educação de Contenda, e Jason Prado, presidente da ONG LeiaBrasil. A união das falas ressaltou a contribuição social da empresa e a parceria com os educadores, tão necessária para definir outros e melhores rumos para a educação nos municípios e escolas naquele momento congregados.
Foi a apresentação de Jason Prado que trouxe, e confirmou, o mote do encontro: “investir no futuro é também recuperar o passado”. Daí a importância desse encontro para tentar sanar o desconhecimento que cerca a presença do negro na formação do Brasil. O objetivo da discussão estava profundamente relacionado com um dos “grandes nós da educação: a formação continuada do professor em serviço”. Aprender continuadamente, aprender para repassar aos alunos, pensando na formação de cidadãos através da leitura e tornando-os conhecedores de nosso passado, de nossa história.
Todos os palestrantes desse dia, cada um com seu conhecimento específico, trazendo contribuições significativas para sanar desconhecimentos e abrir as mentes para a grande e imensa tarefa de harmonizar a diversidade que forma o Brasil e os brasileiros, constituíram um painel de perspectivas diferentes para o estudo da presença do negro e das culturas africanas em nosso país.
A alegria do evento, nesse primeiro trabalho do ano de 2008, veio marcada pelo reencontro com as matrizes/raízes (o baobá africano e o pau-brasil). E muito se falou de conquistas, uma questão de democracia. Acima de tudo, a conquista da brasilidade, mistura herdada, que nos integra e diferencia (convém lembrar que, no exterior, o passaporte brasileiro é o mais cobiçado, segundo Jason Prado, pois nosso biotipo é extremamente diversificado).
Para apresentar e trazer à luz informações preciosas sobre a presença africana no Brasil, Joel Rufino dos Santos abordou essa diversidade e a impossibilidade de tratar da presença negra no Brasil colonial sem que aflorem situações contraditórias, como a do negro baiano, Felix de Souza, o maior traficante de escravos do período. Apesar das poderosas civilizações existentes na África ao longo do período da escravidão no Brasil, presentes nos negros para aqui trazidos, os brasileiros se inventaram: somos mais sofisticados do que os povos que nos originaram. Por exemplo, o candomblé, que não existia na África, onde as religiões eram variadas. Também a presença de negros muçulmanos, originando um Islã negro no Brasil.
Joel Rufino dos Santos trouxe três posições político-sociais sobre a presença africana de extrema importância: o conceito de que a primeira grande globalização foi a escravidão (no Brasil, a escravidão sustentou o cultivo da cana-de-açúcar e fez crescer o meio circulante); a de que o escravo era acima de tudo um trabalhador e um libertário; e a de que há diferentes níveis de relacionamento entre as etnias ( o preconceito racial, que é diferente de discriminação que é diferente de racismo. A alteração é de grau e de gravidade. O primeiro pode existir sem que os demais se manifestem.)
Para também tratar de suprir com informações o desconhecimento a respeito da música popular brasileira e a contribuição dos negros, Haroldo Costa traçou uma história de homens e nomes que transformaram o semba, etimologicamente significando “umbigo” e o modo de dançar dando umbigadas, no brasileiríssimo samba. Sua evolução do batuque de tambores ao ritmo do corpo, ao lundu e as renovações e contribuições de compositores e instrumentistas como Pe. José Maurício, mestre da Capela Real, Ernesto Nazareth , Noel Rosa, Sinhô, Cartola, Pixinguinha e muitos outros.
O professor Luiz Geraldo Silva trouxe o conhecimento já produzido na Universidade e que se expressa por documentos, relatos, fotos e números. Muitas das informações que circulam na sociedade e nas escolas sobre a formação do Brasil e a importância dos negros em nossa história e cultura podem ser desmentidas pela pesquisa e pela documentação existente: os quatro milhões de escravos trazidos para cá provinham de diferentes tribos, com culturas diversificadas e com línguas próprias. Essa diversidade se manifestou em rebeliões, associações cultas e avançadas, na convivência de negros livres e escravos, na profusão de profissões e funções que davam suporte ao cotidiano da Colônia [canoeiros, engenhos, mineiros (MG), capineiros (carregavam capim), barbeiros, cabeleireiros, vendedores (de angus, de cestos, de produtos da mata), condução das tropas e muitas outras].
O professor Jelson Oliveira trouxe a linguagem da filosofia e, baseado em Nietzsche, tratou do corpo e dança e da presença de Dioniso na cultura dos negros. Como forma de resistência, de consciência e de energia pura, rompendo as barreiras sociais e afirmando a festa da nação, em forma de Carnaval.
Em cada um desses momentos e dessas falas, o que se pôde apreender foi o debate saudável entre diferentes perspectivas, na busca da compreensão do que foi o passado e o que se preservou, e preserva até hoje, de uma herança cultural inalienável de nossa consciência de povo. Foi possível verificar como preconceitos que denigrem e se equivocam no tratamento da contribuição negra em nossa formação persistem em falas e atitudes presentes na escola e na mente de alguns professores em relatos dos participantes. No entanto, também foi possível verificar como das falas e das trocas entre todos os presentes foi nascendo uma nova compreensão, um novo olhar sobre a contribuição negra no Brasil. A descoberta, mais uma vez, de nossa mestiçagem e de nossa heterogeneidade cultural foi, sem dúvida, a conclusão mais marcante de todo o evento.
Texto de Marta de Morais da Costa
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