Voltar

Observatório Leia Brasil

A ONG Leia Brasil e a UFF realizaram uma pesquisa em quatro cidades atendidas pelos programas, no Estado do Rio de Janeiro. O objetivo é analisar a capacidade de leitura e a influência das ações da ONG. Clique abaixo e leia a entrevista com Carolina Araújo, coordenadora da pesquisa.

O Leia Brasil e a Universidade Federal Fluminense (UFF) realizaram, em parceria, uma pesquisa por quatro cidades atendidas pelos programas da ONG Leia Brasil, no Estado do Rio de Janeiro: Macaé, Magé, Niterói e Saquarema. A pesquisa teve como objetivo analisar a capacidade de leitura e a influência das ações dos programas, a partir do acompanhamento e filmagem das respostas dos alunos aos trabalhos sugeridos pelos professores em sala de aula. 

Para isso, a professora da Faculdade de Educação da UFF Carolina Araújo fez, durante o ano letivo de 2006, três visitas em cada uma das 32 salas de aulas participantes da pesquisa. Metade delas faz parte do programa e a outra metade não. Essa metodologia foi usada para que fosse possível avaliar a eficácia dos programas da ONG Leia Brasil.

As visitas foram realizadas em turmas de fins de ciclo: 4ª série ou 5º ano e 8ª série ou 9º ano de escolaridade. Os textos sugeridos para trabalho em sala de aula foram os mesmos usados nos concursos de apresentações teatrais. A proposta dos programas de 2006, no Estado do Rio, foi a de promover a leitura através da linguagem dramática.

Os resultados da pesquisa serão utilizados no meio acadêmico de formação de professores, além da utilização pela ONG Leia Brasil como fonte de consulta para possíveis alterações e melhorias em suas ações.

Leia a entrevista realizada com a coordenadora da pesquisa, Carolina Araújo

Como surgiu a idéia da pesquisa?
Algumas informações que tinha sobre as ações do Leia Brasil para a promoção da leitura me faziam crer que havia nelas algo que pudesse ser usado em escala mais ampla para uma transformação realmente efetiva na realidade da leitura no Brasil, isso gerou a iniciativa de conhecer o projeto mais de perto, na tentativa de elaborar um material que a própria Universidade e as instituições de educação de maneira geral pudessem usar em suas pesquisas e práticas. Apresentei então, ao Leia Brasil e à UFF, a proposta de um projeto de extensão que acompanharia e avaliaria o trabalho do Leia Brasil durante o ano de 2006.

Qual o principal objetivo da pesquisa?
Avaliar o impacto das ações de promoção da leitura do Leia Brasil em escolas públicas de quatro municípios do Estado do Rio de Janeiro durante o ano de 2006, registrando esse cotidiano não apenas segundo critérios de avaliação objetiva, mas também em meio áudio-visual, de modo que fosse respeitada a liberdade criativa da função didática. Além disso, foi necessário acompanhar uma mesma amostragem de turmas que participavam e não participavam do projeto, para que, desse paralelo, um parecer mais nítido fosse alcançado.

Qual foi a maior dificuldade encontrada na realização das visitas?
Foi quebrar a resistência que alguns profissionais da educação tinham em relação à atuação de uma pessoa de fora, principalmente dentro de sala de aula. Em alguns casos, só depois da primeira visita às turmas o gelo foi quebrado e a insegurança superada.

Como você acha que o resultado pode influenciar os professores em exercício e também os estudantes de pedagogia?
Em primeiro lugar chamando a sua atenção para a gravidade da situação do letramento no Brasil, para a dificuldade que nossas crianças e jovens têm em relação ao texto escrito. Tomar consciência dessa realidade já é um passo muito importante na formação dos profissionais. Além disso, acho que o trabalho aponta diretrizes para um movimento eficiente na transformação dessa realidade, o que gera, no mínimo, uma ampliação no repertório de estratégias didáticas.

Que problemas você destaca como os mais graves?
O mais grave é o quadro geral de letramento que constatamos: 57%, ou seja, mais da metade, das turmas apresentaram nível 1 de leitura, em uma escala que vai até 5, o que indica serem capazes de reconhecer o tema central de um texto, mas não de operar com dois ou mais significados concorrentes; que podem relacionar informações explícitas no texto com o seu cotidiano, mas não realizar inferências básicas quando há um mínimo de complexidade na exposição do dado.

Dentro desse cenário, eu destacaria ainda o alto índice de nível 1 em turmas de 9º ano do Ensino Fundamental: 37%. A princípio isso simplesmente indicaria alunos que concluem o Ensino Fundamental sem capacidade de aplicar os dados de um texto simples à sua realidade. Mas há uma complexidade maior nesse caso, que precisa ser considerada. Os alunos dessa série, de uma maneira geral, não têm interesse de participação na aula, recusando-se a realizar as tarefas propostas do professor. Como a nossa proposta de investigação tinha como material de trabalho a resposta dos alunos em sala de aula, foi-nos impossível discernir as turmas, ou a proporção de alunos em uma turma, que não se interessavam pela leitura na escola das que não estavam aptas a compreender um texto. Entretanto, essa não é uma falha da pesquisa, mas, sim, um dado sobre os adolescentes brasileiros: eles não lêem porque não se interessam e não se interessam porque não conseguem ver na leitura um prazer, ou seja, não tiveram uma educação para esse prazer.

Você acha que a linguagem dramática pode realmente ajudar na compreensão da leitura? De que maneira?
Acho que sim, mas, principalmente, se não estivermos buscando soluções miraculosas, o que tende a ser um hábito nesse meio. “Salvar” alunos em situação de risco social ou de analfabetismo funcional não é e não pode ser entendido como uma intervenção rápida e fulminante. A educação foi e é pensada como um processo, que, apenas no nível fundamental, duraria nove anos. Então não é da noite para o dia que se forma um leitor. Se pensarmos, como eu disse anteriormente, que o leitor é aquele que lê porque encontra prazer na informação que retira do texto, o papel da escola na sua formação é revelar esse prazer, que não é imediato como quando comemos algo que agrada o nosso paladar.  Não somos, por natureza, letrados, por isso a cultura, e a escola dentro dela, precisam nos ensinar esse prazer. E, como já dizia Aristóteles, os homens sentem prazer no drama, na imitação, na vivência de uma realidade que não é a sua, mas que poderia ser. Se a linguagem dramática é fonte de prazer, a sua associação com o texto escrito é uma experiência interessante na formação do leitor.

Como você fez para chegar a uma conclusão pesquisando municípios com particularidades e diferenças? E as diferenças entre as escolas?
Na verdade, as particularidades e diferenças dos municípios estão retratadas na própria conclusão e sempre foi esse nosso objetivo, mostrar aquilo que, idealmente igual, acaba por se revelar diferente. E essa diferença não é apenas no nível municipal. Há escolas muito diferentes em cada município, há turmas diferentes em uma mesma escola, e o que tentamos foi apontar essa diferença, até porque, para pensar uma educação democrática, temos que tratar de maneira diferente o que é diferente.

Você acha que fatores sócio-econômicos e culturais influenciam no trabalho do professor e nas respostas dos alunos? Como?
Certamente. Pudemos constatar, por exemplo, que o percentual de nível 1 de leitura, que em geral, como dissemos, era de 57%, chega a 75% em turmas localizadas em áreas rurais e a 80% nas localizadas em áreas urbanas de risco social.

Por que você pensou em fazer também um vídeo e não somente um relatório escrito?
Por dois motivos, um metodológico e outro expositivo. Metodologicamente, queríamos acompanhar a resposta da turma à proposta do professor, o que exigia liberdade para que ele fizesse o que quisesse. Enquadrar, então, os resultados obtidos em sala de aula em uma categoria objetiva, diminuindo ao máximo a margem de erro do observador, requeria poder rever aquela situação, daí a necessidade prática das imagens. Por outro lado, avaliar um cenário de infinitas possibilidades segundo critérios fixos parece dar margem a uma certa arbitrariedade do pesquisador, de modo que as imagens se tornaram, para nós, um testemunho do processo e uma justificativa da avaliação. Isso fez, não com que houvesse um vídeo em paralelo ao relatório, mas com que o relatório fosse em parte áudio-visual. Enfim, esse meio foi uma exigência do trabalho.

A presença da câmera geralmente influencia a atitude das pessoas. Você acha que isso aconteceu nas visitas às escolas? Como esse fato pode ter influenciado no resultado e na dinâmica da aula?
Certamente que há influência, mas certamente ela não muda uma realidade. Em geral, o que constatamos foi um certo distúrbio causado pela câmera durante os primeiros momentos em sala de aula, mas isso não impediu que os agentes desempenhassem os seus papéis: que o professor solicitasse determinada tarefa e que os alunos a realizassem do seu modo. Nisso o ambiente da sala de aula é mais determinante do que a presença de um elemento estranho; por mais que houvesse uma novidade, o cumprimento de determinadas normas de comportamento não foi afetado. Isso nos permitiu avaliar o que queríamos avaliar: se os alunos eram ou não capazes de responder à proposta do professor e em que medida essa proposta fazia com que eles desenvolvessem as habilidades necessárias ao letramento.

Deixe um comentário

Colunas | Depoimentos | Escritores e suas obras | Fórum | Publicações | Recomendados | Teoria da Leitura
Aprenda com o Leia Brasil | Trabalhando a leitura | Consultoria | Nossos Programas | Quem somos | Contato
Copyright © 2009 Leia Brasil todos os direitos reservados
| Termos de uso | Politica de Privacidade